13 maio 2009

Afinal, cura-se!

E não é que afinal a homossexualidade cura-se!? Ou melhor, há terapias para "reorientação da orientação sexual", diz a notícia.

Sobre os méritos ou deméritos desta posição, não me pronuncio. Seria como pronunciar-me sobre o criacionismo versus evolucionismo ou sobre as teorias que dizem que o Sol anda em torno da Terra. Não me pronuncio sobre absurdos.

Mas acho que devo dizer alguma coisa sobre a expressão "reorientação da orientação sexual": não se reorienta uma orientação. Muda-se uma orientação. Dizer que se "reorienta uma orientação" quer dizer que inicialmente a orientação foi orientada. A orientação sexual pode ser escolhida, assumida, descoberta, mas não é orientada. Quem se orienta é a pessoa que escolhe, assume, descobre uma orientação sexual. Logo, a pessoa que escolhe, assume, descobre uma orientação sexual pode ser reorientada, a própria orientação sexual, não.

Seria bom que, sobretudo em temas tão delicados, houvesse o cuidado por parte de pessoas com responsabilidade em não utilizar expressões que não fazem qualquer sentido, do ponto de vista lógico. Mas acho que isso é um pedido tão absurdo como esperar que os dirigentes políticos discursem com conteúdo e não apenas com chavões vazios de sentido, ou que nos debates sobre futebol a argumentação fosse com base em factos e não acusações repetidas e não fundamentadas. Enfim, eu sou um sonhador...

12 comentários:

adavid disse...

Orienta-te pá!

Teté disse...

E quando acordas do sonho, o mundo parece-te algo absurdo, não?

Deixa estar, não és o único sonhador!

Quanto às curas "milagrosas", pois, era necessário que houvesse uma doença, certo? Tanto quanto se sabe, a homossexualidade não se enquadra por aí... ;)

Sun Iou Miou disse...

Gostava saber como é que se reorienta isso: com descargas eléctricas, como flechas indicadoras do caminho da salvação ou com carinho (eh, pá!, não vais por aí, olha, assim, bonito, muito bem, essa é a figura que deves perseguir, um biscoito para o campeão!)?

Ah, sempre o despertador a acordar no melhor do sonho...

T. disse...

Reorientar uma orientação: isso é orientação de 2ª ordem, ou quê?

Mas a sério: se achamos razoável que uma pessoa nascida mulher vá a um médico (OK, a muitos) porque não quer ser mulher, mas homem, e em geral não se censura a pesquisa de procedimentos médicos e acompanhamentos psicológicos adequados para uma mudança de sexo, apesar de nascer mulher não ser uma doença, seguindo a mesma lógica deve ser razoável que, havendo quem seja homossexual e queira deixar de o ser, haja médicos, psicólogos e psiquiatras que procurem desenvolver métodos para tal.

Se os métodos funcionam ou não, não sei. Mas não é preciso pensar que a homossexualidade seja uma doença para ser admissível que uma pessoa queira ser trans-orientacional, passe o neologismo, e queira ajuda médica para tal.

Anónimo disse...

"Quanto às curas "milagrosas", pois, era necessário que houvesse uma doença, certo? Tanto quanto se sabe, a homossexualidade não se enquadra por aí... ;)"

As versōes mais antigas do DSM parecem discordar desta opiniāo. Era considerada patologia psiquiátrica mas deixou de ser sem que eu pelo menos saiba quer os argumentos para a classificaçāo original quer para a emenda.

Excelente comentário TaniaRocha. De facto defender o direito a uma coisa e nāo a outra é um absurdo.

Anónimo disse...

O comentário da TaniaRocha ficou-me verdadeiramete na memória. Já o reli várias vezes à conta disso.

Raramente leio comentários tāo bons.

Apresenta um argumento racional por analogia numa situaçāo conhecida (a existência e aceitaçāo legal e social da trans-sexualidade) para justificar algo que é muitas vezes descartado como disparate a priori por quem nunca pensou sobre isto e se limita a repetir a cartilha que leu (ou lhe leram) nalgum lado.

Acho que devo agradecer-lhe claramente o facto de o ter escrito.

Muito obrigado.

PS:
Quanto ao disparate da reorientação da orientação sexual, o artigo é claro: "Eu falo de 'reenquadrar’, não de 'reorientar".

Nelson disse...

Foi nos anos 60 ou início dos anos setenta que deixou de ser classificada como uma doença. E não foi por capricho de ninguém, houve séria discussão sobre o assunto. Nenhuma instituição actualmente defende que a homossexualidade seja uma doença, tirando alguns grupos com motivações religiosas.

T. disse...

:: blushes ::

T. disse...

(caso alguém não perceba a notação anterior, significa que fiquei corada).

Anónimo disse...

http://en.wikinews.org/wiki/Dr._Joseph_Merlino_on_sexuality,_insanity,_Freud,_fetishes_and_apathy#Homosexuality_and_psychiatry

Homosexuality and psychiatry

DS: The declassification of homosexuality as a mental disorder was a controversial debate in the psychiatric community, and it is still presented 30 years later as if it is this raging debate, and that it is just activism that was the impetus for change as opposed to any real hard science.
JM: It's true! It was. It was activism. But there was not hard science to say that homosexuality was a disorder or an illness, and that was the reason why activists took aim at psychiatry and psychoanalysis and challenged them to come up with the data to support that position. And they couldn't! The only data they could come up with were psychoanalytic theories that were not data. The data that they called data was presented from small groups of clinical populations of people who are gay who didn't like or didn't want or couldn't accept being gay. That was the population from which this so-called data was extracted. What the gay activists did in the 1970's was pull out the true data, the scientific data that they could find, and presented it to the diagnosis committee of the American Psychiatric Association and persuaded them that the science that did exist was on the side of homosexuality not being a disease or a disorder. That is why the diagnosis committee--the Nomenclature Committee, which is what it was called--suggested to the Board of the American Psychiatric Association that it be removed, and it was.

DS: If the issue was presented today, would it be 58% still, or would it be a greater number that do not believe homosexuality is a mental illness?
JM: I think so. There are still clusters of holdouts who believe--and it's traditionally a psychoanalysts who still see it as a disorder--but those people who are really dwindling. In fact, one of the last leaders of that movement, Charles Socarides, died a few years ago. I think that particular view is dying out.

DS: But it still has credence?
JM: It still has credence in groups that consider themselves scientists, but really aren't. It's more of a religious movement. I think we've come full circle. Psychiatry thinking there is something wrong with being homosexual really came out of the Judeo-Christian movement for the past 2,000 years. We moved away from that and to organized medicine through psychiatry, taking the position that it's not an evil in terms of the individual; it's an illness. The thinking it was a problem of the individual came from the psychoanalytic movement, which held sway in American psychiatry through the 1950's. American psychiatry beforehand never took up the issue of homosexuality; it was never even something that was thought about in terms of was it an illness or wasn't it an illness? It was just presumed, it was accepted it was an illness. Until that was challenged in the late 1960's, early 1970's.

Nelson disse...

bastava o link, Anónimo. Era escusada a repetição quase integral do texto.

Além disso, não me parece que a classificação da homossexualidade como doença esteja, sequer, em discussão.

Anónimo disse...

Foi apenas a parte relacionada com o tópico. A entrevista é MUITO maior.

Dá uma perspectiva desapaixonada da história e dos motivos da classificação e alteração.