O Verão é para as pessoas como o Inverno para os ursos polares. Eles hibernam todo o Inverno e despertam quando o frio começa a aliviar. As pessoas passam o Verão numa espécie de torpor de férias e aos poucos, quando chegamos a Setembro, retomam lentamente as suas rotinas.
A primeira coisa que um urso polar faz ao acordar é procurar comida e tomar um belo pequeno-almoço. O Inverno foi longo e as reservas de energia estão no mínimo. Já as pessoas quando voltam ao trabalho tentam por tudo juntar uns trocos extra. O Verão foi longo e os saldos do cartão de crédito estão todos esgotados.
Para os ursos a Primavera é uma época complicada. É preciso recuperar peso e ao mesmo tempo começar a pensar na época de acasalamento que se avizinha, e a pressão para ter sucesso acumula-se. Já as pessoas passam o Outono a tentar recuperar a estabilidade financeira e começam a planear como vai ser o Natal, que a necessidade de mostrar sucesso, na forma de presentes ou ostentação de nível de vida, é premente.
Depois da época de acasalamento os ursos polares passam os meses restantes antes do Inverno a acumular gordura para poderem hibernar outra vez. Já os humanos passam os meses de Inverno e Primavera a apertar o cinto para poderem ir de férias no Verão seguinte.
Mas chega de comparações entre seres humanos e mamíferos que, apesar do seu aspecto fofinho, têm muito mau feitio.
Eu queria mesmo era falar do Verão. E este, o Verão de 2008, tá quase a acabar-se. E AINDA BEM! Não me entendam mal, eu até gosto bastante do Verão, não dou daquelas pessoas que diz que não gosta do Verão, que se queixa que a praia tem areia, que o mar tem sal, que o calor incomoda, que o Sol queima e por aí fora. Gosto de Sol, gosto de calor, gosto de praia e, sobretudo, gosto de ver (alguns) corpos femininos com pouca roupa e preferencialmente nenhuma.
Mas estou mesmo contente que este Verão esteja a acabar. É que o Verão de 2008 não vai ficar na história. Por nada. Não houve nada neste Verão que seja digno de nota. Não foi muito quente nem muito frio, não foi muito chuvoso nem muito seco. Não foi nada de especial. Este ano, mais que em qualquer outro, quando alguém que já não vejo há 3 meses pergunta "Então, como foi o teu Verão?" faz mais sentido que nunca a resposta "Eh, passou-se". Sem mais. Não se fala das vagas de calor, que não houve, ou na ausência de dias bons para a praia, porque os tivémos q.b. Não se fala na vaga de incêndios, porque não houve nem muitos, nem poucos. Não se fala da chuva, porque só choveu a meia dúzia de vezes que é normal, nem nas nuvens porque também só as houve em quantidade certa.
Mas, pior que tudo, além da metereologia, nada de especial aconteceu! Houve um campeonato europeu de futebol e a nossa prestação não foi nem boa, nem má, ficámos pelo caminho não tendo jogado nem muito mal, nem muito bem. Tivémos os Jogos Olímpicos e os nossos ateltas portaram-se, em média, assim-assim. Na política nacional houve umas notícias escassas e umas tentativas de polémicas mas até Manuela Ferreira Leite com as suas ausências contribuiu para um ambiente de pré-época política apenas morno. Nem quente, nem frio. O PR ainda tentou um ar de sua graça com aquela comunicação ao país mas no fim só nos perguntámos "O quê, era só isto?". Os camionistas bloquearam as estradas mas a coisa arrefeceu em 3 dias e depois a gasolina começa a descer, longe das previsões cataclísmicas da altura.
Não houve nada de especial a acontecer no Verão. Por isso, este Verão não me deixa saudades. Não sinto saudades dos dias de Verão que já passaram, nem deixo de sentir. Por mim, acabava-se já o Verão, venha um Outono com personalidade, que Verões desenxabidos não têm grande graça. E que depois tenhamos um grande Inverno, uma bela Primavera e que o Verão do ano que vem seja mais que um mero bluff, como foi este.
11 setembro 2008
LHC
Alguém pediu que eu pusesse um post a explicar o que é o LHC. Acontece que eu tenho uma regra básica: nunca falar sobre um assunto na presença de quem me possa desmascarar. E há físicos de partículas na audiência (alguns lêm *avidamente* o Ó Faxavor a partir do próprio CERN).
Por isso, passo a palavra a quem percebe mais disto que eu: o Rap do LHC
Nota: A palavra *avidamente*, assim entre asteriscos e tudo, foi acrescentada após solicitação do adavid nos comentários ;)
Por isso, passo a palavra a quem percebe mais disto que eu: o Rap do LHC
Nota: A palavra *avidamente*, assim entre asteriscos e tudo, foi acrescentada após solicitação do adavid nos comentários ;)
Séries de TV
Eu não gosto particularmente de televisão. Há séries que aprecio, e muito, mas a generalidade passa-me ao lado.
A semana passada regressou uma das excepções que me faz marcar na agenda a data de emissão dos vários episódios: começou a 3ª season de Dexter. Infelizmente não posso fazer com a terceira como fiz com a segunda que vi toda de seguida num único fim de semana. Esta vai mesmo ter de ser vista aos poucos, ao ritmo das emissões nos EUA (o próximo é dia 28).
Outra das excepções é Boston Legal. Como a FOX Crime costuma dar os episódios em vários horários, volta e meia lá tou eu a ver um qualquer episódio da 1ª, 2ª ou 3ª temporada (ainda não começaram a emitir a 4ª). Há diálogos que são inimitáveis. Este é de um episódio da 2ª temporada (a propósito, umas linhas antes o Alan Shore tinha usado a palavra "inimitable" para descrever o Denny Crane):
Denny Crane: It's fun being me. Is it fun being you?
Alan Shore: Most of the time, yes, indeed.
Denny Crane: Well, what else is there?
A semana passada regressou uma das excepções que me faz marcar na agenda a data de emissão dos vários episódios: começou a 3ª season de Dexter. Infelizmente não posso fazer com a terceira como fiz com a segunda que vi toda de seguida num único fim de semana. Esta vai mesmo ter de ser vista aos poucos, ao ritmo das emissões nos EUA (o próximo é dia 28).
Outra das excepções é Boston Legal. Como a FOX Crime costuma dar os episódios em vários horários, volta e meia lá tou eu a ver um qualquer episódio da 1ª, 2ª ou 3ª temporada (ainda não começaram a emitir a 4ª). Há diálogos que são inimitáveis. Este é de um episódio da 2ª temporada (a propósito, umas linhas antes o Alan Shore tinha usado a palavra "inimitable" para descrever o Denny Crane):
Denny Crane: It's fun being me. Is it fun being you?
Alan Shore: Most of the time, yes, indeed.
Denny Crane: Well, what else is there?
Madonna
Domingo vão estar presentes 65000 pessoas para assistir ao concerto da Madonna no Parque da Bela Vista. Espera-se uma multidão composta por:
- 45000 mulheres adultas heterossexuais
- 20000 homens homossexuais
- 9000 adolescentes que só gostam das músicas mais recentes
- 998 homens heterossexuais (um deles sou eu)
- 2 lésbicas que ganharam bilhetes num concurso da Mega FM e como detestam galinhas e bichas vão ao concerto só para chatear, vão ver a primeira parte e depois ficam a aborrecer-se durante 2 horas
- 45000 mulheres adultas heterossexuais
- 20000 homens homossexuais
- 9000 adolescentes que só gostam das músicas mais recentes
- 998 homens heterossexuais (um deles sou eu)
- 2 lésbicas que ganharam bilhetes num concurso da Mega FM e como detestam galinhas e bichas vão ao concerto só para chatear, vão ver a primeira parte e depois ficam a aborrecer-se durante 2 horas
2-3
Alguém me consegue explicar o que raio aconteceu ontem?!
Jogámos bem, a Dinamarca pouco ou nada fez durante 80 minutos, tivémos oportunidades mais que suficientes para ganhar por 2 ou 3 nas calmas, e em 10 minutos levamos 3 golos. Como? Como raio é que os vikings conseguem ir três vezes à baliza e marcar 3 golos? E porque é que nós tivémos pelo menos 4 oportunidades descaradas para fazer o 2-0 (Simão, Nani, Danny e Nuno Gomes) e não concretizámos nenhuma?
Aspecto positivo: não nos limitámos a gerir o 1-0 e continuámos a atacar, como era hábito nos tempos de Scolari.
Aspecto negativo: perdemos por não saber gerir nem dilatar a vantagem, coisa que não era habitual nos tempos de Scolari.
Jogámos bem, a Dinamarca pouco ou nada fez durante 80 minutos, tivémos oportunidades mais que suficientes para ganhar por 2 ou 3 nas calmas, e em 10 minutos levamos 3 golos. Como? Como raio é que os vikings conseguem ir três vezes à baliza e marcar 3 golos? E porque é que nós tivémos pelo menos 4 oportunidades descaradas para fazer o 2-0 (Simão, Nani, Danny e Nuno Gomes) e não concretizámos nenhuma?
Aspecto positivo: não nos limitámos a gerir o 1-0 e continuámos a atacar, como era hábito nos tempos de Scolari.
Aspecto negativo: perdemos por não saber gerir nem dilatar a vantagem, coisa que não era habitual nos tempos de Scolari.
10 setembro 2008
Coerência
Alguém que me explique, se faz favor.
Notícia 1, publicada dia 9 de Setembro, às 13:47: O colectivo que julga o chamado "megaprocesso do álcool" deu hoje como provado que o produto, importado de França por algum dos arguidos, provocou a morte de uma mulher e foi causa provável de morte de quatro homens na Noruega.
Notícia 2, publicada no mesmo dia, às 16:45: A juíza-presidente do colectivo, Maria Amélia Lopes da Silva, afirmou na leitura do acórdão que o tribunal entendeu "não se terem provado factos suficientes" que permitam estabelecer a ligação directa entre as mortes ocorridas na Noruega pela ingestão de álcool misturado com metanol e o facto de os arguidos terem importado álcool de França sem pagar impostos.
Ajuda precisa-se. Acho que estou com um caso agudo de iliteracia. Ou isso ou os juizes deste processo andaram a ingerir álcool com metanol misturado...
Notícia 1, publicada dia 9 de Setembro, às 13:47: O colectivo que julga o chamado "megaprocesso do álcool" deu hoje como provado que o produto, importado de França por algum dos arguidos, provocou a morte de uma mulher e foi causa provável de morte de quatro homens na Noruega.
Notícia 2, publicada no mesmo dia, às 16:45: A juíza-presidente do colectivo, Maria Amélia Lopes da Silva, afirmou na leitura do acórdão que o tribunal entendeu "não se terem provado factos suficientes" que permitam estabelecer a ligação directa entre as mortes ocorridas na Noruega pela ingestão de álcool misturado com metanol e o facto de os arguidos terem importado álcool de França sem pagar impostos.
Ajuda precisa-se. Acho que estou com um caso agudo de iliteracia. Ou isso ou os juizes deste processo andaram a ingerir álcool com metanol misturado...
Caboum!!!
Naaaaa.... ainda não foi desta! O LHC começou (ainda não se sabe se correu bem ou mal) a funcionar hoje de manhã, mas o Apocalipse ainda vai demorar uns meses. Meanwhile... vivam cada dia como se fosse o último que mais tarde ou mais cedo acertam!
8:30 da manhã
Se já passa das 8:30 da manhã e estás a ler isto, então o Mundo não acabou!
Esta afirmação, assim de repente, pode parecer algo parva. E é, claro. Se o mundo tivesse acabado não estavas aqui a ler isto. Mas...
É que o mundo podia mesmo ter acabado às 8:30. Porque às 8:30 (9:30 CET) vai ter lugar a primeira tentativa de injecção de um feixe de partículas dentro do novo acelerador de partículas do CERN, o LHC.
E porque é que isto é um problema? Bom, porque já se ouviu dizer (por gente que provavelmente pouco percebe de física, mas isso agora não importa) que as energias em jogo no LHC são de tal monta que poderiam dar origem a um buraco negro que rapidamente e de forma descontrolada iria sugar o mundo todo para o seu interior! Baril, não é?
Para saber mais:
Site oficial do LHC First Beam
Artigo (em francês) sobre esta apocalíptica possibilidade
(obrigado Jorge!)
PS: Não, a entrada em funcionamento do LHC não irá provocar o fim do mundo. Temos muito mais que 9h para disfrutar deste planeta.
PPS: o post inicialmente referia as 9:30 da manhã, mas afinal foi uma hora mais cedo. Olha se o mundo tem acabado, han? Tinham-me roubado a última hora...
Esta afirmação, assim de repente, pode parecer algo parva. E é, claro. Se o mundo tivesse acabado não estavas aqui a ler isto. Mas...
É que o mundo podia mesmo ter acabado às 8:30. Porque às 8:30 (9:30 CET) vai ter lugar a primeira tentativa de injecção de um feixe de partículas dentro do novo acelerador de partículas do CERN, o LHC.
E porque é que isto é um problema? Bom, porque já se ouviu dizer (por gente que provavelmente pouco percebe de física, mas isso agora não importa) que as energias em jogo no LHC são de tal monta que poderiam dar origem a um buraco negro que rapidamente e de forma descontrolada iria sugar o mundo todo para o seu interior! Baril, não é?
Para saber mais:
Site oficial do LHC First Beam
Artigo (em francês) sobre esta apocalíptica possibilidade
(obrigado Jorge!)
PS: Não, a entrada em funcionamento do LHC não irá provocar o fim do mundo. Temos muito mais que 9h para disfrutar deste planeta.
PPS: o post inicialmente referia as 9:30 da manhã, mas afinal foi uma hora mais cedo. Olha se o mundo tem acabado, han? Tinham-me roubado a última hora...
09 setembro 2008
Stocks
Diálogo numa bomba de gasolina:
Eu: São 2 maços de Marlboro, se faz favor
Ele: Só 100's.
Eu: Então 2 maços de Português vermelho.
Ele: Só dos pequenos.
Eu: Então 2 maços de LM.
Ele: Só tenho 1.
Eu: ...
Gestão de stocks, please?!
Eu: São 2 maços de Marlboro, se faz favor
Ele: Só 100's.
Eu: Então 2 maços de Português vermelho.
Ele: Só dos pequenos.
Eu: Então 2 maços de LM.
Ele: Só tenho 1.
Eu: ...
Gestão de stocks, please?!
A nossa selecção
Amanhã há bola. É a selecção. Já fizemos o primeiro jogo, ganhámos 4-0 a Malta, e agora vamos jogar contra a Dinamarca. Como quer a Suécia, quer a Dinamarca, os nossos principais adversários, empataram na primeira jornada, já vamos com 2 pontos de avanço. E já ouvi algures (um programa desportivo ou assim) a habitual futurologia futebolística a estabelecer os vários cenários, apontando para os 5 pontos de avanço que podemos passar a ter em relação à Dinamarca.
Moral da história: já estamos apurados!!! (claro que, caso a situação fosse invertida, já muita gente auguraria o desastre iminente, mas como não é, já podemos cantar vitória ainda antes da festa...)
Moral da história: já estamos apurados!!! (claro que, caso a situação fosse invertida, já muita gente auguraria o desastre iminente, mas como não é, já podemos cantar vitória ainda antes da festa...)
Não tou a perceber
Quando as notas dos exames são más e chumbam muitos alunos é sinal que o ensino está mau.
Quando o número de chumbos desce para valores históricos, é sinal que os exames foram fáceis e o ensino está mau.
Alguém pode explicar-me como é que vou perceber que o ensino está bom? Ou é incontornável que esteja sempre mau?
Nota: dispenso comentários de quem ache mesmo que o ensino está mau ou de quem ache mesmo que o ensino está bom. Não faço ideia como está o ensino (por acaso até faço, mas a minha ideia não é para aqui chamada), só queria mesmo perceber é que indicadores me servem para analisar a situação.
Quando o número de chumbos desce para valores históricos, é sinal que os exames foram fáceis e o ensino está mau.
Alguém pode explicar-me como é que vou perceber que o ensino está bom? Ou é incontornável que esteja sempre mau?
Nota: dispenso comentários de quem ache mesmo que o ensino está mau ou de quem ache mesmo que o ensino está bom. Não faço ideia como está o ensino (por acaso até faço, mas a minha ideia não é para aqui chamada), só queria mesmo perceber é que indicadores me servem para analisar a situação.
Regresso
Pronto, ao fim de 1 semana tou de volta. Foi bom, gostei, vi coisas giras (outras que nem tanto), encontrei pessoas interessantes (outras que nem tanto), fiz trabalhos de qualidade (outros que nem tanto) e apanhei dias de bom tempo (outros que nem tanto).
Durante a semana de ausência tive uma carrada de ideias para posts excelentes (e outros que nem tanto), mas como não me apeteceu tomar nota num papel esqueci-me delas todas. Olha, azar, fica para a próxima.
Se tudo correr bem a coisa vai voltar à produção habitual em breve. E como já acabaram os Jogos Olímpicos (mas estão a decorrer os para-olímpicos) e começou o campeonato, volta à baila um dos assuntos mais falados no blog: a bola! ;)
Durante a semana de ausência tive uma carrada de ideias para posts excelentes (e outros que nem tanto), mas como não me apeteceu tomar nota num papel esqueci-me delas todas. Olha, azar, fica para a próxima.
Se tudo correr bem a coisa vai voltar à produção habitual em breve. E como já acabaram os Jogos Olímpicos (mas estão a decorrer os para-olímpicos) e começou o campeonato, volta à baila um dos assuntos mais falados no blog: a bola! ;)
JO2008 - Parte XV, Conclusão
Este post conclui uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
(antes de mais, desculpem lá a demora na publicação deste post... estive a semana passada toda fora e julgava que ia ter ligação à net, mas não tive)
A minha análise dos Jogos Olímpicos, da participação portuguesa e de tudo o que a rodeou deixa-me sentimentos mistos: por um lado tivemos uma boa prestação desportiva, talvez um pouco aquém dos resultados de Atenas. Por outro, foi a prestação olímpica mais polémica, carregada de críticas aos atletas e dirigentes do Comité Olímpico Português.
É visível a melhoria nas condições de trabalho e treino dos atletas, o projecto do COP tem pernas para andar e há condições para que o investimento continue, de preferência com valores maiores aos que foram investidos para Pequim 2008.
Após Atenas 2004 tivémos pela primeira vez verbas para o projecto "Esperanças Olímpicas", em que são apoiados atletas cuja participação olímpica se prevê apenas num prazo de 8 anos. Isto faz toda a diferença, as grandes potências desportivas mundiais, além de apoiarem os seus atletas, apoiam os jovens promissores. Mesmo sabendo que muitos nunca irão além de promessas por cumprir. Mas o apoio dado a dezenas de atletas terá os seus frutos no futuro, quando meia dúzia das dezenas acolhidas pelo projecto se tornarem atletas de nível olímpico, tendo beneficiado e muito da evolução que lhes permitiu o investimento do COP.
Os resultados desportivos ficaram aquém das expectativas criadas, muito por culpa do COP que criou essas expectativas, em particular do seu presidente, Vicente Moura. Um país que ganha dezenas de medalhas pode estipular como objectivo atingir uma determinada fasquia. Um país com o palmarés do nosso não pode colocar fasquias ambiciosas, que constituiriam a melhor prestação olímpica de sempre, e depois agir como se de um grande fracasso se tratasse não atingir esse mesmo objectivo. O objectivo mínimo nunca pode ser "o melhor resultado de sempre". Os melhores resultados de sempre surgem como resultado do trabalho à mistura com alguma sorte. Lembremo-nos de Atenas em que a medalha de prata conseguida por Sérgio Paulinho no ciclismo era tudo menos previsível. E a medalha de Obikwelu também não era nada certa, na altura havia um grande domínio norte-americano. Lembrem-se que os EUA conseguiram o pleno na corrida de 200m e só não fizeram o mesmo nos 100m porque Obikwelu fez a corrida de uma vida, batendo o seu record pessoal e igualando o record europeu. Não é algo que se possa prever.
Ter como objectivo 4 medalhas é como o Porto traçar como objectivo mínimo a presença na final da Liga dos Campeões. Não que o não consigam fazer, ainda há meia dúzia de anos ganharam a Champions, mas não foi apenas mérito seu, houve alguma sorte à mistura e alguma incapacidade misturada com azar dos seus adversários. Obviamente que, tendo em conta a estrutura da equipa, o objectivo tem de ser sempre realista. Neste caso, uma passagem à segunda fase e depois logo se vê.
Contudo, e apesar do irrealismo dos objectivos, todo o país se comportou como se já estivesse ganho! Criou-se o já habitual clima de euforia que facilmente contagia os portugueses, com sede de coisas que lhes animem o espírito procurando, talvez, no desporto o escape para os problemas das suas vidas pessoais ou profissionais.
Os resultados até não foram maus, trouxemos duas muito merecidas medalhas, e a generalidade da comitiva portou-se bem tendo em conta as suas expectativas pessoais. Alguns ficaram abaixo, talvez à conta dos nervos misturados com algum azar (Naide Gomes e Gustavo Lima parecem-me ser disso exemplo), algum deslumbramento misturado com arbitragens questionáveis (caso da Telma Monteiro), ou imponderáveis da prova (como aconteceu com Jessica Augusto). Outros houve que excederam as expectativas criadas (caso de Ana Cabecinha nos 20km marcha, as 3 tripulações da canoagem, a equipa de remo ou Daniela Inácio nos 10km de natação em águas abertas). Em balanço final, até nos portámos bem.
Mas as reacções às prestações da equipa cobriram-se de um negativismo impensável à partida. Alguma comunicação social empolou polémicas irrelevantes, os atletas mostraram-se particularmente inábeis na forma de lidar com a comunicação social (aspecto a rever, sff.) e sobretudo o presidente do COP borrou a pintura toda. E fê-lo em 2 momentos (depois de ter dado o mote com a criação de expectavivas mirabolantes): quando anuncia durante a prova que não se recandidata a novo mandato e dá mostras de insatisfação com o empenho dos atletas (com a prova a decorrer deveria ter sabido manter-se calado e não deitar ainda mais achas para a fogueira, em vez de sacudir a água do capote e apontar o dedo ao bode expiatório mais a jeito); e sobretudo quando, 2 dias depois, a medalha de Nelson Évora muda completamente as circunstâncias e afinal já são os melhores resultados de sempre e já está disponível para novo mandato.
Vicente Moura fez-me lembrar um determinado primeiro-ministro português (que o foi apenas por meia dúzia de meses) que anunciou diversas vezes a sua "reforma" da vida pública, seja como membro do Governo ou da Assembleia da República, como dirigente desportivo ou partidário. Quando a coisa não lhe corria de feição vinha com grande dramatismo e lágrima ao canto do olho dizer que se vai embora, magoado; para voltar, uns meses mais tarde, assim que visse uma possibilidade de regresso. Duvido que Vicente Moura siga conscientemente o exemplo deste senhor ex-Primeiro Ministro, mas foi precisamente isso que fez: tornou-se o Santana Lopes do Comité Olímpico Português.
Por estas razões, concordo com a intervenção de Vicente Moura antes da medalha de Nelson Évora: não há condições para um novo mandato. Não concordei quando o anunciou, achei que era demasiado teatral, mas em balanço, as suas intervenções são o aspecto mais digno de crítica em toda a participação olímpica portuguesa. Ouviu-se dizer que Rosa Mota era uma possibilidade avançada pela Federação Portuguesa de Atletismo, mas a própria já veio dizer que nem pensar nisso. É pena, acho que, à semelhança do que acontece noutros Comités Olímpicos Nacionais, um atleta olímpico pode ser um grande dirigente olímpico. Espero que outro candidato surja, que seja uma escolha razoavelmente consensual, e que tenha a força de impedir certos atropelos que ocorreram em Pequim (nomeadamente as viagens de dirigentes federativos em detrimento de treinadores de atletas). Além, claro, de continuar e ampliar o bom projecto de preparação olímpica que começamos a ter.
Em relação à opinião pública (refiro-me à minoria muito barulhenta, acredito que a maioria se quedou silenciosa), são como um mendigo, cheio de fome, mas que desdenha da comida que lhe oferecem. Não são dignos da representação olímpica que têm. Exigem resultados, mas contestam o investimento. E não percebem absolutamente nada dos desportos olímpicos, tirando um, em que não participámos: o futebol. Ao longo de 4 anos este país só tem olhos e ouvidos para o futebol e de 4 em 4 anos aparecem os senhores do costume a exigir prestação de contas.
Lamento muito que os atletas portugueses tenham sido sujeitos às barbaridades ditas por uma cambada de idiotas. Espero que esqueçam os idiotas e que compreendam que em Portugal não há só idiotas. E espero ver-vos, a todos, em Londres 2012 (sobretudo à Naide Gomes que precisa de uma séria desforra, e nós também!)
(antes de mais, desculpem lá a demora na publicação deste post... estive a semana passada toda fora e julgava que ia ter ligação à net, mas não tive)
A minha análise dos Jogos Olímpicos, da participação portuguesa e de tudo o que a rodeou deixa-me sentimentos mistos: por um lado tivemos uma boa prestação desportiva, talvez um pouco aquém dos resultados de Atenas. Por outro, foi a prestação olímpica mais polémica, carregada de críticas aos atletas e dirigentes do Comité Olímpico Português.
É visível a melhoria nas condições de trabalho e treino dos atletas, o projecto do COP tem pernas para andar e há condições para que o investimento continue, de preferência com valores maiores aos que foram investidos para Pequim 2008.
Após Atenas 2004 tivémos pela primeira vez verbas para o projecto "Esperanças Olímpicas", em que são apoiados atletas cuja participação olímpica se prevê apenas num prazo de 8 anos. Isto faz toda a diferença, as grandes potências desportivas mundiais, além de apoiarem os seus atletas, apoiam os jovens promissores. Mesmo sabendo que muitos nunca irão além de promessas por cumprir. Mas o apoio dado a dezenas de atletas terá os seus frutos no futuro, quando meia dúzia das dezenas acolhidas pelo projecto se tornarem atletas de nível olímpico, tendo beneficiado e muito da evolução que lhes permitiu o investimento do COP.
Os resultados desportivos ficaram aquém das expectativas criadas, muito por culpa do COP que criou essas expectativas, em particular do seu presidente, Vicente Moura. Um país que ganha dezenas de medalhas pode estipular como objectivo atingir uma determinada fasquia. Um país com o palmarés do nosso não pode colocar fasquias ambiciosas, que constituiriam a melhor prestação olímpica de sempre, e depois agir como se de um grande fracasso se tratasse não atingir esse mesmo objectivo. O objectivo mínimo nunca pode ser "o melhor resultado de sempre". Os melhores resultados de sempre surgem como resultado do trabalho à mistura com alguma sorte. Lembremo-nos de Atenas em que a medalha de prata conseguida por Sérgio Paulinho no ciclismo era tudo menos previsível. E a medalha de Obikwelu também não era nada certa, na altura havia um grande domínio norte-americano. Lembrem-se que os EUA conseguiram o pleno na corrida de 200m e só não fizeram o mesmo nos 100m porque Obikwelu fez a corrida de uma vida, batendo o seu record pessoal e igualando o record europeu. Não é algo que se possa prever.
Ter como objectivo 4 medalhas é como o Porto traçar como objectivo mínimo a presença na final da Liga dos Campeões. Não que o não consigam fazer, ainda há meia dúzia de anos ganharam a Champions, mas não foi apenas mérito seu, houve alguma sorte à mistura e alguma incapacidade misturada com azar dos seus adversários. Obviamente que, tendo em conta a estrutura da equipa, o objectivo tem de ser sempre realista. Neste caso, uma passagem à segunda fase e depois logo se vê.
Contudo, e apesar do irrealismo dos objectivos, todo o país se comportou como se já estivesse ganho! Criou-se o já habitual clima de euforia que facilmente contagia os portugueses, com sede de coisas que lhes animem o espírito procurando, talvez, no desporto o escape para os problemas das suas vidas pessoais ou profissionais.
Os resultados até não foram maus, trouxemos duas muito merecidas medalhas, e a generalidade da comitiva portou-se bem tendo em conta as suas expectativas pessoais. Alguns ficaram abaixo, talvez à conta dos nervos misturados com algum azar (Naide Gomes e Gustavo Lima parecem-me ser disso exemplo), algum deslumbramento misturado com arbitragens questionáveis (caso da Telma Monteiro), ou imponderáveis da prova (como aconteceu com Jessica Augusto). Outros houve que excederam as expectativas criadas (caso de Ana Cabecinha nos 20km marcha, as 3 tripulações da canoagem, a equipa de remo ou Daniela Inácio nos 10km de natação em águas abertas). Em balanço final, até nos portámos bem.
Mas as reacções às prestações da equipa cobriram-se de um negativismo impensável à partida. Alguma comunicação social empolou polémicas irrelevantes, os atletas mostraram-se particularmente inábeis na forma de lidar com a comunicação social (aspecto a rever, sff.) e sobretudo o presidente do COP borrou a pintura toda. E fê-lo em 2 momentos (depois de ter dado o mote com a criação de expectavivas mirabolantes): quando anuncia durante a prova que não se recandidata a novo mandato e dá mostras de insatisfação com o empenho dos atletas (com a prova a decorrer deveria ter sabido manter-se calado e não deitar ainda mais achas para a fogueira, em vez de sacudir a água do capote e apontar o dedo ao bode expiatório mais a jeito); e sobretudo quando, 2 dias depois, a medalha de Nelson Évora muda completamente as circunstâncias e afinal já são os melhores resultados de sempre e já está disponível para novo mandato.
Vicente Moura fez-me lembrar um determinado primeiro-ministro português (que o foi apenas por meia dúzia de meses) que anunciou diversas vezes a sua "reforma" da vida pública, seja como membro do Governo ou da Assembleia da República, como dirigente desportivo ou partidário. Quando a coisa não lhe corria de feição vinha com grande dramatismo e lágrima ao canto do olho dizer que se vai embora, magoado; para voltar, uns meses mais tarde, assim que visse uma possibilidade de regresso. Duvido que Vicente Moura siga conscientemente o exemplo deste senhor ex-Primeiro Ministro, mas foi precisamente isso que fez: tornou-se o Santana Lopes do Comité Olímpico Português.
Por estas razões, concordo com a intervenção de Vicente Moura antes da medalha de Nelson Évora: não há condições para um novo mandato. Não concordei quando o anunciou, achei que era demasiado teatral, mas em balanço, as suas intervenções são o aspecto mais digno de crítica em toda a participação olímpica portuguesa. Ouviu-se dizer que Rosa Mota era uma possibilidade avançada pela Federação Portuguesa de Atletismo, mas a própria já veio dizer que nem pensar nisso. É pena, acho que, à semelhança do que acontece noutros Comités Olímpicos Nacionais, um atleta olímpico pode ser um grande dirigente olímpico. Espero que outro candidato surja, que seja uma escolha razoavelmente consensual, e que tenha a força de impedir certos atropelos que ocorreram em Pequim (nomeadamente as viagens de dirigentes federativos em detrimento de treinadores de atletas). Além, claro, de continuar e ampliar o bom projecto de preparação olímpica que começamos a ter.
Em relação à opinião pública (refiro-me à minoria muito barulhenta, acredito que a maioria se quedou silenciosa), são como um mendigo, cheio de fome, mas que desdenha da comida que lhe oferecem. Não são dignos da representação olímpica que têm. Exigem resultados, mas contestam o investimento. E não percebem absolutamente nada dos desportos olímpicos, tirando um, em que não participámos: o futebol. Ao longo de 4 anos este país só tem olhos e ouvidos para o futebol e de 4 em 4 anos aparecem os senhores do costume a exigir prestação de contas.
Lamento muito que os atletas portugueses tenham sido sujeitos às barbaridades ditas por uma cambada de idiotas. Espero que esqueçam os idiotas e que compreendam que em Portugal não há só idiotas. E espero ver-vos, a todos, em Londres 2012 (sobretudo à Naide Gomes que precisa de uma séria desforra, e nós também!)
06 setembro 2008
Pedimos desculpa pela interrupção
Desculpem lá qualquer coisinha, era para ter avisado, mas não deu. Fui para fora na segunda-feira, contava ter acesso à net, mas não tive. Acabei de chegar, deixem-me arrumar as malas.
Em relação aos jogos olímpicos, em breve prometo que vou ler os comentários todos (e responder, se relevante), e pelas minhas contas ainda falta um post.
Em relação aos jogos olímpicos, em breve prometo que vou ler os comentários todos (e responder, se relevante), e pelas minhas contas ainda falta um post.
01 setembro 2008
JO2008 - Parte XIV, O dinheiro dos contribuintes
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Se há coisa que a malta gosta de puxar à conversa é o "dinheiro dos contribuintes". De cada vez que o tuga quer reclamar de alguma coisa surge o assunto do dinheiro público à baila.
Na Expo 1998 houve muita gente a queixar-se do dinheiro público e o mesmo se passou com o Euro-2004. Questiona-se o gasto de dinheiro público com o TGV, com a OTA. E este ano, surgiu uma novidade: questiona-se o dinheiro púlico gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos.
Mas... quanto foi o dinheiro dos contribuintes gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim? A resposta é: 14 milhões de euros. Nem mais, nem menos. Foi esta a verba atribuída pelo estado ao Comité Olímpico Português, para preparação da participação portuguesa: subsídios a federações, despesas com o programa, criação de infra-estruturas, bolsas a atletas, bolsas a treinadores, etc.
Só como curiosidade, a RTP investiu (ou gastou, depende da perspectiva) 22 milhões de euros para adquirir os direitos de transmissão dos jogos da I Liga de Futebol em canal aberto (a Sport TV continua a deter os direitos para a competição mas ao abrigo do serviço público 1 jogo semana é transmitido em canal aberto). Não ponho em causa o investimento (ou despesa, depende da perspectiva) da RTP nas transmissões futebolísticas, mas não gosto que haja dois pesos e duas medidas.
Do orçamento do COP para a preparação dos Jogos Olímpicos de Pequim quanto é atribuído aos atletas? Com que critérios? Como são avaliadas as suas prestações?
Bom, aqui vêm os números, cada um avalie por si: Um atleta é integrado no programa olímpico ao atingir resultados de relevo. Estes podem ser resultados em provas do programa olímpico, Campeonato do Mundo ou Jogos Olímpicos. No caso de Campeonatos da Europa compete à Federação respectiva a criação de critérios adequados.
E os critérios são:
- Um atleta medalhado (3 primeiros lugares) é integrado no nível I;
- um atleta finalista (8 primeiros classificados) é integrado no nível II;
- um atleta semi-finalissta (10, 12 ou 16 primeiros classificados) é integrado no nível III;
- um atleta pode ser ainda integrado no nível IV, dependendo de critérios específicos de um determinado evento ou modalidade (por exemplo, atingindo os mínimos de qualificação).
Aos atletas do programa olímpico são atribuidas bolsas, cujo objectivo é financiar a sua actividade. Estas bolsas são de:
Nível I: 1250 Euros/mês
Nível II: 1000 Euros/mês
Nível III: 750 Euros/mês
Nível IV: 500 Euros/mês.
Semestralmente, o desempenho do atleta é avaliado e de acordo com os resultados obtidos será atribuido um nível para o semestre seguinte. Dependendo dos resultados há períodos de permanência mínima no projecto. Por exemplo, um finalista olímpico tem garantida a sua continuidade durante todo o ciclo olímpico seguinte; um semi-finalista tem a sua continuidade assegurada durante 2 anos. Mas... e alguém que fique aquém das expectativas, por exemplo Naide Gomes? Pode ler-se no contrato-programa que "Quando um atleta for excluído do projecto por incumprimento dos objectivos desportivos, beneficia de uma continuidade do apoio de 50% da bolsa de nível 3, por um período máximo de três meses". Ou seja, como Naide ficou claramente aquém das expectativas, quer dizer que vai receber 375 euros durante 3 meses. Depois, ou bem que tem resultados de topo para mostrar ou deixa de receber bolsa.
Além das bolsas para a preparação olímpica, há prémios para os atletas que atingem medalhas. Segundo ouvi na comunicação social, Nelson Évora irá receber 30 mil euros do COP como prémio pela medalha de ouro.
Para Londres 2012 o COP propôs ao governo um aumento de 14 para 17 milhões de euros (aumento de 20%) e o aumento das bolsas de preparação olímpica para, respectivamente, 1500, 1200, 900 e 600 euros/mês. Já é qualquer coisa, mas acho que continua a ser um projecto modesto e por isso apenas pode almejar a resultados igualmente modestos.
Mesmo sendo realidades totalmente distintas, gostaria de lembrar o caso do futebol: no mundial de 2006 os jogadores da selecção portuguesa receberam, de prémio de participação, 50 mil euros cada um. Isto é independente dos resultados. Não sei qual o montante dos prémios em caso de vitória no mundial (espero bem que sejam avultados!) nem qual o prémio efectivamente pago pela presença nas meias-finais. No Euro-2008 foi noticiado que o prémio em caso de vitória seria de 300 mil euros a cada atleta. Não sei (porque não foi anunciado) qual o montante do prémio de presença pago pela FPF. Não quero contestar os valores pagos ao futebol, acho que é dinheiro bem empregue. Além disso, é dinheiro da FPF que faz com ele o que bem entende. Mas gostaria de apontar o paradoxo de o prémio a ser pago aos futebolistas da selecção nacional em caso de vitória no Euro-2008 chegar para cobrir METADE do programa olímpico. Ou seja, seria suficiente para pagar a totalidade das despesas do COP (bolsas, infra-estruturas, viagens e ajudas de custo, formação, despesas administrativas) durante 2 anos!!! Das duas uma: ou a FPF paga muito ou o COP paga pouco. Eu voto na segunda.
E como acho que não são as verbas que a FPF disponibiliza que devem ser contestadas, fui procurar informações sobre outras selecções olímpicas. Encontrei dados referentes a 3: a preparação olímpica espanhola para os jogos de Barcelona 1992, a preparação olímpica inglesa para Pequim e a preparação olímpica Chinesa para Pequim.
Penso que o caso espanhol deve servir-nos de modelo e o caso inglês deverá ser um objectivo. Não tanto pelos números, mas sobretudo pela forma como conseguem obter os financiamentos necessários.
O caso espanhol
Espanha foi anfitriã dos jogos de 1992 e investiu seriamente na preparação dos seus atletas. O objectivo era obter a melhor participação de sempre e deixar as bases para uma melhoria significativa dos resultados olímpicos para o futuro. O objectivo foi, a todos os níveis, conseguido. De entre os vários números que podemos consultar no documento, saliento os valores obtidos através de patrocinadores (7 mil milhões de pesetas, 42 milhões de euros), e os valores das bolsas aos atletas olímpicos, entre 840.000 e 7.800.000 pesetas anuais (entre 5 mil e 47 mil euros anuais), sendo o valor médio de 3 milhões de pesetas por atleta (18 mil euros, ou seja, 1500 euros/mês). E isto era em 1992, há 16 anos, numa altura em que se faziam campeões olímpicos por muito menos que agora!
O caso inglês
Em antecipação à organização dos jogos de 2012 a Inglaterra aumentou substancialmente o seu investimento. Dos 59 milhões de libras (cerca de 70 milhões de euros) para Sidney e 70 milhões para Atenas (90 milhões de euros) passou para 235 milhões para Pequim (cerca de 300 milhões de euros). (Nota: usei como taxa de conversão 1.3; o euro neste momento está valorizado em relação à libra, mas é um fenómeno relativamente recente, sendo 1.3 um valor mais justo para fazer a comparação a longo prazo; a libra chegou a valer 1.6 no início de circulação do Euro). Como resultado, obtiveram em Pequim 47 medalhas (19 de ouro). O ratio investimentos/medalhas para Portugal e Grã-Bretanha é mais ou menos id~entico (cerca de 7 milhões de euros por medalha conseguida). Ou seja, os nossos resultados estão perfeitamente enquadrados dentro do investimento realizado.
Note-se no caso inglês que, tal como nós, possuem vários níveis de apoio aos atletas. Os ingleses usam apenas 3 níveis: podium, development e talen. Podium é o nível onde são integrados os atletas com boas perspectivas de obtenção de medalhas olímpicas; development é a segunda linha de investimentos; talent é o equivalente ao nosso programa de Esperanças Olímpicas (que é uma novidade por cá: desde 2005 decorre o programa Esperanças Londres 2012 e vai arrancar agora o programa Esperanças 2016). A diferença está nos números: A grã-Bretanha tem mais de 1500 atletas nos níveis Podium e Development. Sendo que apenas 300 e tal foram integrados na equipa olímpica. Ou seja, a sua "pool" de atletas é grande, permitindo à chegada aos jogos seleccionar apenas os que estão em melhor forma. Em Portugal, por outro lado, praticamente todos os atletas no programa olímpico são seleccionáveis, já que não temos mais por onde escolher. Na maior parte das modalidades ou eventos temos apenas 1 atleta de nível internacional, capaz de fazer mínimos.
O caso chinês
O caso chinês, obviamente, não serve de exemplo para ninguém. A partir de 2000 o investimento anual cifrou-se em mais de 700 milhões de dólares anuais! O que dá 2.800 milhões de dólares por cada ciclo olímpico!!! São números avassaladores, que só podem ser conseguidos por governos ditaturiais com uma base de contribuintes na casa do bilião. Claro que alguma coisa fica para trás, e num país ainda muito pobre (para a esmagadora maioria da população), gasta-se mais que em qualquer outro no programa olímpico. Mas serve de lição: sem ovos (guito!) não se fazem omeletes (campeões olímpicos). E se queremos muitos campeões, temos de gastar muito, mas mesmo muito dinheiro.
Voltando ao nosso caso
O investimento português é razoável e estão a criar-se condições para que os resultados apareçam no longo prazo. Infra-estruturas, centros de alto rendimento, apoio aos clubes, às federações. Mas demora tempo. E aos 4 milhões de euros por ano vai demorar muito até conseguirmos sequer apanhar países como a Holanda, por exemplo (a Holanda tem cerca de metade da nossa população e conseguiu 16 medalhas, sendo 7 de ouro). Espero que com estes números a nossa participação, bem como os objectivos traçados ao início, possam ser devidamente analisados, em condições justas.
E que, de futuro, se pense mais nas modalidades desportivas além-futebol. Ou então, que nos deixemos de preocupar com os resultados dessas modalidades e assumamos por uma vez que apenas o futebol interessa. Durante 4 anos ninguém ouve falar da preparação olímpica e a cada 4 anos vem toda a gente pedir contas do que se fez com o dinheiro. Como se fosse uma grande fortuna. Como se ser atleta olímpico em Portugal fosse o caminho mais fácil para uma vida financeiramente desafogada.
Referências:
- Página do COP sobre o programa Pequim 2008 (ao fundo da página têm os links relevantes)
- A participação do CO Espanhol no sucesso de 1992 (PDF)
- UK Sport a entidade responsável pela preparação olímpica britânica
- Artigo de opinião sobre o investimento chinês
Se há coisa que a malta gosta de puxar à conversa é o "dinheiro dos contribuintes". De cada vez que o tuga quer reclamar de alguma coisa surge o assunto do dinheiro público à baila.
Na Expo 1998 houve muita gente a queixar-se do dinheiro público e o mesmo se passou com o Euro-2004. Questiona-se o gasto de dinheiro público com o TGV, com a OTA. E este ano, surgiu uma novidade: questiona-se o dinheiro púlico gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos.
Mas... quanto foi o dinheiro dos contribuintes gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim? A resposta é: 14 milhões de euros. Nem mais, nem menos. Foi esta a verba atribuída pelo estado ao Comité Olímpico Português, para preparação da participação portuguesa: subsídios a federações, despesas com o programa, criação de infra-estruturas, bolsas a atletas, bolsas a treinadores, etc.
Só como curiosidade, a RTP investiu (ou gastou, depende da perspectiva) 22 milhões de euros para adquirir os direitos de transmissão dos jogos da I Liga de Futebol em canal aberto (a Sport TV continua a deter os direitos para a competição mas ao abrigo do serviço público 1 jogo semana é transmitido em canal aberto). Não ponho em causa o investimento (ou despesa, depende da perspectiva) da RTP nas transmissões futebolísticas, mas não gosto que haja dois pesos e duas medidas.
Do orçamento do COP para a preparação dos Jogos Olímpicos de Pequim quanto é atribuído aos atletas? Com que critérios? Como são avaliadas as suas prestações?
Bom, aqui vêm os números, cada um avalie por si: Um atleta é integrado no programa olímpico ao atingir resultados de relevo. Estes podem ser resultados em provas do programa olímpico, Campeonato do Mundo ou Jogos Olímpicos. No caso de Campeonatos da Europa compete à Federação respectiva a criação de critérios adequados.
E os critérios são:
- Um atleta medalhado (3 primeiros lugares) é integrado no nível I;
- um atleta finalista (8 primeiros classificados) é integrado no nível II;
- um atleta semi-finalissta (10, 12 ou 16 primeiros classificados) é integrado no nível III;
- um atleta pode ser ainda integrado no nível IV, dependendo de critérios específicos de um determinado evento ou modalidade (por exemplo, atingindo os mínimos de qualificação).
Aos atletas do programa olímpico são atribuidas bolsas, cujo objectivo é financiar a sua actividade. Estas bolsas são de:
Nível I: 1250 Euros/mês
Nível II: 1000 Euros/mês
Nível III: 750 Euros/mês
Nível IV: 500 Euros/mês.
Semestralmente, o desempenho do atleta é avaliado e de acordo com os resultados obtidos será atribuido um nível para o semestre seguinte. Dependendo dos resultados há períodos de permanência mínima no projecto. Por exemplo, um finalista olímpico tem garantida a sua continuidade durante todo o ciclo olímpico seguinte; um semi-finalista tem a sua continuidade assegurada durante 2 anos. Mas... e alguém que fique aquém das expectativas, por exemplo Naide Gomes? Pode ler-se no contrato-programa que "Quando um atleta for excluído do projecto por incumprimento dos objectivos desportivos, beneficia de uma continuidade do apoio de 50% da bolsa de nível 3, por um período máximo de três meses". Ou seja, como Naide ficou claramente aquém das expectativas, quer dizer que vai receber 375 euros durante 3 meses. Depois, ou bem que tem resultados de topo para mostrar ou deixa de receber bolsa.
Além das bolsas para a preparação olímpica, há prémios para os atletas que atingem medalhas. Segundo ouvi na comunicação social, Nelson Évora irá receber 30 mil euros do COP como prémio pela medalha de ouro.
Para Londres 2012 o COP propôs ao governo um aumento de 14 para 17 milhões de euros (aumento de 20%) e o aumento das bolsas de preparação olímpica para, respectivamente, 1500, 1200, 900 e 600 euros/mês. Já é qualquer coisa, mas acho que continua a ser um projecto modesto e por isso apenas pode almejar a resultados igualmente modestos.
Mesmo sendo realidades totalmente distintas, gostaria de lembrar o caso do futebol: no mundial de 2006 os jogadores da selecção portuguesa receberam, de prémio de participação, 50 mil euros cada um. Isto é independente dos resultados. Não sei qual o montante dos prémios em caso de vitória no mundial (espero bem que sejam avultados!) nem qual o prémio efectivamente pago pela presença nas meias-finais. No Euro-2008 foi noticiado que o prémio em caso de vitória seria de 300 mil euros a cada atleta. Não sei (porque não foi anunciado) qual o montante do prémio de presença pago pela FPF. Não quero contestar os valores pagos ao futebol, acho que é dinheiro bem empregue. Além disso, é dinheiro da FPF que faz com ele o que bem entende. Mas gostaria de apontar o paradoxo de o prémio a ser pago aos futebolistas da selecção nacional em caso de vitória no Euro-2008 chegar para cobrir METADE do programa olímpico. Ou seja, seria suficiente para pagar a totalidade das despesas do COP (bolsas, infra-estruturas, viagens e ajudas de custo, formação, despesas administrativas) durante 2 anos!!! Das duas uma: ou a FPF paga muito ou o COP paga pouco. Eu voto na segunda.
E como acho que não são as verbas que a FPF disponibiliza que devem ser contestadas, fui procurar informações sobre outras selecções olímpicas. Encontrei dados referentes a 3: a preparação olímpica espanhola para os jogos de Barcelona 1992, a preparação olímpica inglesa para Pequim e a preparação olímpica Chinesa para Pequim.
Penso que o caso espanhol deve servir-nos de modelo e o caso inglês deverá ser um objectivo. Não tanto pelos números, mas sobretudo pela forma como conseguem obter os financiamentos necessários.
O caso espanhol
Espanha foi anfitriã dos jogos de 1992 e investiu seriamente na preparação dos seus atletas. O objectivo era obter a melhor participação de sempre e deixar as bases para uma melhoria significativa dos resultados olímpicos para o futuro. O objectivo foi, a todos os níveis, conseguido. De entre os vários números que podemos consultar no documento, saliento os valores obtidos através de patrocinadores (7 mil milhões de pesetas, 42 milhões de euros), e os valores das bolsas aos atletas olímpicos, entre 840.000 e 7.800.000 pesetas anuais (entre 5 mil e 47 mil euros anuais), sendo o valor médio de 3 milhões de pesetas por atleta (18 mil euros, ou seja, 1500 euros/mês). E isto era em 1992, há 16 anos, numa altura em que se faziam campeões olímpicos por muito menos que agora!
O caso inglês
Em antecipação à organização dos jogos de 2012 a Inglaterra aumentou substancialmente o seu investimento. Dos 59 milhões de libras (cerca de 70 milhões de euros) para Sidney e 70 milhões para Atenas (90 milhões de euros) passou para 235 milhões para Pequim (cerca de 300 milhões de euros). (Nota: usei como taxa de conversão 1.3; o euro neste momento está valorizado em relação à libra, mas é um fenómeno relativamente recente, sendo 1.3 um valor mais justo para fazer a comparação a longo prazo; a libra chegou a valer 1.6 no início de circulação do Euro). Como resultado, obtiveram em Pequim 47 medalhas (19 de ouro). O ratio investimentos/medalhas para Portugal e Grã-Bretanha é mais ou menos id~entico (cerca de 7 milhões de euros por medalha conseguida). Ou seja, os nossos resultados estão perfeitamente enquadrados dentro do investimento realizado.
Note-se no caso inglês que, tal como nós, possuem vários níveis de apoio aos atletas. Os ingleses usam apenas 3 níveis: podium, development e talen. Podium é o nível onde são integrados os atletas com boas perspectivas de obtenção de medalhas olímpicas; development é a segunda linha de investimentos; talent é o equivalente ao nosso programa de Esperanças Olímpicas (que é uma novidade por cá: desde 2005 decorre o programa Esperanças Londres 2012 e vai arrancar agora o programa Esperanças 2016). A diferença está nos números: A grã-Bretanha tem mais de 1500 atletas nos níveis Podium e Development. Sendo que apenas 300 e tal foram integrados na equipa olímpica. Ou seja, a sua "pool" de atletas é grande, permitindo à chegada aos jogos seleccionar apenas os que estão em melhor forma. Em Portugal, por outro lado, praticamente todos os atletas no programa olímpico são seleccionáveis, já que não temos mais por onde escolher. Na maior parte das modalidades ou eventos temos apenas 1 atleta de nível internacional, capaz de fazer mínimos.
O caso chinês
O caso chinês, obviamente, não serve de exemplo para ninguém. A partir de 2000 o investimento anual cifrou-se em mais de 700 milhões de dólares anuais! O que dá 2.800 milhões de dólares por cada ciclo olímpico!!! São números avassaladores, que só podem ser conseguidos por governos ditaturiais com uma base de contribuintes na casa do bilião. Claro que alguma coisa fica para trás, e num país ainda muito pobre (para a esmagadora maioria da população), gasta-se mais que em qualquer outro no programa olímpico. Mas serve de lição: sem ovos (guito!) não se fazem omeletes (campeões olímpicos). E se queremos muitos campeões, temos de gastar muito, mas mesmo muito dinheiro.
Voltando ao nosso caso
O investimento português é razoável e estão a criar-se condições para que os resultados apareçam no longo prazo. Infra-estruturas, centros de alto rendimento, apoio aos clubes, às federações. Mas demora tempo. E aos 4 milhões de euros por ano vai demorar muito até conseguirmos sequer apanhar países como a Holanda, por exemplo (a Holanda tem cerca de metade da nossa população e conseguiu 16 medalhas, sendo 7 de ouro). Espero que com estes números a nossa participação, bem como os objectivos traçados ao início, possam ser devidamente analisados, em condições justas.
E que, de futuro, se pense mais nas modalidades desportivas além-futebol. Ou então, que nos deixemos de preocupar com os resultados dessas modalidades e assumamos por uma vez que apenas o futebol interessa. Durante 4 anos ninguém ouve falar da preparação olímpica e a cada 4 anos vem toda a gente pedir contas do que se fez com o dinheiro. Como se fosse uma grande fortuna. Como se ser atleta olímpico em Portugal fosse o caminho mais fácil para uma vida financeiramente desafogada.
Referências:
- Página do COP sobre o programa Pequim 2008 (ao fundo da página têm os links relevantes)
- A participação do CO Espanhol no sucesso de 1992 (PDF)
- UK Sport a entidade responsável pela preparação olímpica britânica
- Artigo de opinião sobre o investimento chinês
31 agosto 2008
JO2008 - Parte XIII, Uma de ouro, uma de prata
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Até à final do triplo salto não faltava quem anunciasse na comunicação social a calamidade eminente: vamos sair de Pequim só com uma medalha, um resultado vergonhoso (bem pior foi o de Barcelona em 1992, em que saímos com zero medalhas, mas nestas alturas a comunicação social tem o condão de se esquecer do que não lhes dá jeito).
Já se previa a fanfarra em torno de Vanessa Fernandes, a única que trouxe dignidade às cores nacionais.
Até o presidente do COP veio dizer que não iria candidatar-se a novo mandato, porque falhou os objectivos. Tinham acabado as provas de Naide Gomes e Gustavo Lima, restava 1 possibilidade de medalha.
2 dias depois, salta Nelson Évora (salta, não, que digo eu? VOA!) uns espectaculares 17,67m e ganha a medalha de ouro.
E de repente... passamos de uma prestação "vergonhosa", "decepcionante", "fraca" para "a melhor prestação de sempre". E isto segundo quem? Segundo os critérios do COI, que primeiro ordena por medalhas de ouro, depois por medalhas de prata e depois por medalhas de bronze. Critério que serve muito bem os propósitos: salvar a face! De toda a gente: salvar a face do secretário de estado do desporto, do COP, da missão portuguesa, da comunicação social. A melhor prestação de sempre só o é porque dá jeito.
A "melhor prestação de sempre" conseguiu sê-lo por 6 cm. 6 cm a menos e Nelson Évora ficaria com a prata. 9 cm a menos e ficaria com bronze, 16 cm a menos ficaria fora do pódio.
Como é possível que a "melhor prestação de sempre" dependa de tão pouco? Como é possível que as condições que o presidente do COP não tinha, apareceram de repente, fruto de apenas 16cm? Das duas, uma: ou o COP fez bem o seu trabalho e providenciou aos atletas as melhores condições possíveis, ou não! Se o fez, se o trabalho está bem feito, se as bases estão lançadas, então a continuidade do projecto não pode depender do número de medalhas. Até poderia, se fôssemos um país com a tradição de ganhar medalhas às dezenas, mas quando o objectivo são 4 estamos demasiado à mercê de imponderáveis para hipotecar o projecto numa aposta frágil. Se não fez, se as condições não foram as melhores, se os atletas não tiveram tudo aquilo de que necessitavam, então não é uma medalha de ouro, por mais saborosa, desejada ou merecida, que vai disfarçar o problema.
Vicente Moura fez mal ao anunciar que não se recandidatava. Fez mal porque o anunciou durante os jogos. Deveria ter feito o anúncio, se era essa a sua intenção, no fim dos jogos quando fosse altura de apresentar um balanço. Mas fez muito pior em dar o dito por não dito dois dias depois. Feita a asneira, assume-se a asneira. Sob pena de se perder toda a credibilidade. Até ao seu anúncio de renúncia eu apoiava a liderança de Vicente Moura. Agora acho que é altura de mudar de chefia. Esta perdeu a face e dificilmente a recupera. Junto de atletas, treinadores, federações e público em geral.
Finalmente, como é possível que uma equipa tão contestada, tão criticada, tão atacada por todos os lados, seja agora levada aos píncaros apenas porque em vez de 1 medalha trouxeram duas? Sinceramente, não concordo que esta prestação tenha sido a melhor de sempre. Ou pelo menos não tenho assim tanta certeza. Em 2004 trouxémos 3 medalhas e uma batelada de diplomas olímpicos. Gostei muito dos resultados de Atenas. Não tanto dos de Pequim. Os melhores em Pequim foram melhores que os melhores em Atenas, mas ficámos aquém do desejado nalgumas modalidades e nalguns eventos.
Classificar esta prestação como a melhor de sempre é injusto. É injusto para com os atletas que esperavam ter feito melhor do que fizeram. Dizer que esta prestação foi a melhor de sempre é dizer a Naide Gomes, Gustavo Lima e Telma Monteiro, para citar apenas os 3 casos mais mediáticos, que os seus maus resultados (maus, tendo em conta as expectativas) não nos incomodam. Não estamos nada aborrecidos com o pódio falhado por 1 ponto de Gustavo Lima, com a eliminação surpresa de Naide Gomes ou com a derrota inesperada de Telma Monteiro. Pois eu estou chateado! Estava a contar com melhor. Por isso, não acho que tenham sido os melhores Jogos Olímpicos de sempre. E quero que estes atletas vão a Londres para a desforra dos resultados de Pequim!!! Merecem eles e merecem aqueles que os apoiam.
Próximos episódios:
- O dinheiro dos contribuintes
- Conclusão
Até à final do triplo salto não faltava quem anunciasse na comunicação social a calamidade eminente: vamos sair de Pequim só com uma medalha, um resultado vergonhoso (bem pior foi o de Barcelona em 1992, em que saímos com zero medalhas, mas nestas alturas a comunicação social tem o condão de se esquecer do que não lhes dá jeito).
Já se previa a fanfarra em torno de Vanessa Fernandes, a única que trouxe dignidade às cores nacionais.
Até o presidente do COP veio dizer que não iria candidatar-se a novo mandato, porque falhou os objectivos. Tinham acabado as provas de Naide Gomes e Gustavo Lima, restava 1 possibilidade de medalha.
2 dias depois, salta Nelson Évora (salta, não, que digo eu? VOA!) uns espectaculares 17,67m e ganha a medalha de ouro.
E de repente... passamos de uma prestação "vergonhosa", "decepcionante", "fraca" para "a melhor prestação de sempre". E isto segundo quem? Segundo os critérios do COI, que primeiro ordena por medalhas de ouro, depois por medalhas de prata e depois por medalhas de bronze. Critério que serve muito bem os propósitos: salvar a face! De toda a gente: salvar a face do secretário de estado do desporto, do COP, da missão portuguesa, da comunicação social. A melhor prestação de sempre só o é porque dá jeito.
A "melhor prestação de sempre" conseguiu sê-lo por 6 cm. 6 cm a menos e Nelson Évora ficaria com a prata. 9 cm a menos e ficaria com bronze, 16 cm a menos ficaria fora do pódio.
Como é possível que a "melhor prestação de sempre" dependa de tão pouco? Como é possível que as condições que o presidente do COP não tinha, apareceram de repente, fruto de apenas 16cm? Das duas, uma: ou o COP fez bem o seu trabalho e providenciou aos atletas as melhores condições possíveis, ou não! Se o fez, se o trabalho está bem feito, se as bases estão lançadas, então a continuidade do projecto não pode depender do número de medalhas. Até poderia, se fôssemos um país com a tradição de ganhar medalhas às dezenas, mas quando o objectivo são 4 estamos demasiado à mercê de imponderáveis para hipotecar o projecto numa aposta frágil. Se não fez, se as condições não foram as melhores, se os atletas não tiveram tudo aquilo de que necessitavam, então não é uma medalha de ouro, por mais saborosa, desejada ou merecida, que vai disfarçar o problema.
Vicente Moura fez mal ao anunciar que não se recandidatava. Fez mal porque o anunciou durante os jogos. Deveria ter feito o anúncio, se era essa a sua intenção, no fim dos jogos quando fosse altura de apresentar um balanço. Mas fez muito pior em dar o dito por não dito dois dias depois. Feita a asneira, assume-se a asneira. Sob pena de se perder toda a credibilidade. Até ao seu anúncio de renúncia eu apoiava a liderança de Vicente Moura. Agora acho que é altura de mudar de chefia. Esta perdeu a face e dificilmente a recupera. Junto de atletas, treinadores, federações e público em geral.
Finalmente, como é possível que uma equipa tão contestada, tão criticada, tão atacada por todos os lados, seja agora levada aos píncaros apenas porque em vez de 1 medalha trouxeram duas? Sinceramente, não concordo que esta prestação tenha sido a melhor de sempre. Ou pelo menos não tenho assim tanta certeza. Em 2004 trouxémos 3 medalhas e uma batelada de diplomas olímpicos. Gostei muito dos resultados de Atenas. Não tanto dos de Pequim. Os melhores em Pequim foram melhores que os melhores em Atenas, mas ficámos aquém do desejado nalgumas modalidades e nalguns eventos.
Classificar esta prestação como a melhor de sempre é injusto. É injusto para com os atletas que esperavam ter feito melhor do que fizeram. Dizer que esta prestação foi a melhor de sempre é dizer a Naide Gomes, Gustavo Lima e Telma Monteiro, para citar apenas os 3 casos mais mediáticos, que os seus maus resultados (maus, tendo em conta as expectativas) não nos incomodam. Não estamos nada aborrecidos com o pódio falhado por 1 ponto de Gustavo Lima, com a eliminação surpresa de Naide Gomes ou com a derrota inesperada de Telma Monteiro. Pois eu estou chateado! Estava a contar com melhor. Por isso, não acho que tenham sido os melhores Jogos Olímpicos de sempre. E quero que estes atletas vão a Londres para a desforra dos resultados de Pequim!!! Merecem eles e merecem aqueles que os apoiam.
Próximos episódios:
- O dinheiro dos contribuintes
- Conclusão
JO2008 - Parte XII, Portugueses e Estrangeiros
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Há quatro anos Francis Obikwelu, então atleta português recém-naturalizado, ganhou uma medalha de prata nos 100m nos Jogos Olímpicos de Atenas. A prova foi transmitida em directo no Telejornal e assim que terminou, a grande manchete era "Primeira medalha olímpica portuguesa na velocidade".
Há 4 anos ninguém tinha dúvidas que Obikwelu era português, que a sua medalha era portuguesa. Contudo...
Este ano foi diferente. Foi com a eliminação de Francis Obikwelu nos 100m e consequente abandono da carreira internacional, anunciado minutos depois, que me divorciei completamente da comunicação social portuguesa. Foi nesse momento que achei que a coisa tinha, pura e simplesmente, passado das marcas. E depois só piorou.
1. Após a eliminação, a pivot do programa Desporto 2, transmitido na RTP2 paga com o dinheiro dos contribuintes portugueses, conseguiu a proeza de se referir a Francis Obikwelu como "o atleta nigeriano"; na frase seguinte, Obikwelu passou a "luso-nigeriano" e na frase seguinte já era "atleta português de origem nigeriana". Não, isto não se admite! Nenhum órgão de comunicação social pode, por um lado, dizer que são "vitórias nossas" e no momento seguinte referir-se às "derrotas deles". Muito menos um órgão de comunicação social do estado, pago com dinheiros públicos e obrigado a prestar serviço público.
2. Poucos dias mais tarde, Naide Gomes que até ao momento era uma "atleta portuguesa" foi eliminada na qualificação do salto em comprimento. Em todas as notícias que li, nomeadamente no site do Público, a sua origem "são tomense" foi referida. Em TODAS as notícias, ela foi "atleta portuguesa de origem são tomense".
3. Gustavo Lima, que ao longo de toda a competição da classe Laser foi o "velejador português" passou subitamente, ao perder o pódio por 1 ponto, a ser "o velejador português nascido no Rio de Janeiro". No site do Público.
4. Talvez em virtude da onda de protestos que estes comentários depreciativos acerca da naturalidade dos atletas desencadearam, Nelson Évora passou a ser, em TODAS as notícias, referido como "atleta português, nascido na Costa do Marfim e filho de cabo-verdianos". Assim os órgãos de comunicação social defendem-se das acusações de parcialidade, referindo a naturalidade estrangeira de um atleta apenas quando perde.
Foi vergonhoso. É uma vergonha ver os órgãos de comunicação social a referir a naturalidade dos atletas, mas apenas de alguns. Porque ninguém disse, em nenhuma das notícias, qual a naturalidade de Vanessa Fernandes (é de Perosinho, Vila Nova de Gaia). O tema só surge quando se referem à sua família, que ainda lá mora, à forma como os seus conterrâneos vêem as provas, à festa que ocorreu em sua homenagem. A naturalidade de Vanessa Fernandes não é relevante quando se dá uma notícia sobre a sua participação numa prova, tenha corrido bem ou mal. Porque há-de ser relevante a naturalidade de Francis Obikwelu, Naide Gomes, Nelson Évora ou Gustavo Lima? A naturalidade de um atleta nascido em Braga, Castelo Branco, Almada, Coimbra ou Funchal é tão relevante quando a de um atleta nascido na Costa do Marfim, Nigéria, Guiné Bissau, Brasil, França ou São Tomé e Príncipe.
Os órgãos de comunicação social perceberam bem que meteram a pata na poça pela quantidade de comentários a esse respeito. E por isso salvaram a face referindo a origem Costa-marfinense de Nelson Évora. E podem dizer descansados que "não é só quando perdem, fizémos isso com todos!". O único problema é que... esqueceram-se de alguns: Jessica Augusto nasceu em França e Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau. Esqueceram-se de referir a naturalidade destes dois quando noticiaram as respectivas eliminações. Para a próxima, tomem nota das naturalidades dos atletas todos, podem vir a ser úteis.
E para terminar, uma pequena nota: considero meu compatriota todo aquele que assim tenha nascido e não manifeste vontade de deixar de o ser; e todo aquele que não o sendo de nascença manifeste a vontade de passar a sê-lo e assim concorde o Estado Português. A partir do momento em que o Estado Português reconhece alguém como meu compatriota, então, sê bem-vindo! Pelo que vi há tanto português "de gema" com vergonha de o ser que abraço qualquer estrangeiro que, tendo melhores opções, opta pela nacionalidade portuguesa. Não me importa onde nasceram. Isto também vale para futebolistas como Pepe, Deco (ambos brasileiros de origem), Bosingwa ou Makukula (ambos da República Democrática do Congo, ex-Zaire).
Notas:
- Francis Obikwelu nasceu na Nigéria, naturalizado português a partir de Outubro de 2001; radicou-se em Portugal em 1994, com 16 anos de idade.
- Nelson Évora nasceu na Costa do Marfim e é de ascendência cabo-verdiana; vive em Portugal desde os 5 anos de idade, tendo-se naturalizado português em 2002 (com 18 anos)
- Naide Gomes nasceu em São Tomé e Príncipe e naturalizou-se portuguesa em 2001. Vive em Portugal desde os 11 anos de idade.
- Gustavo Lima nasceu no Rio de Janeiro. Pelo que percebi, é português de nascença, tendo a família regressado a Portugal quando ainda era criança.
- Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau e reside em Portugal desde os 10 anos de idade. Naturalizou-se português aos 23 anos (em 2000 ou 2001, não conseguir determinar a data precisa).
- Jessica Augusto nasceu em França, mas pelo que pude determinar, desde sempre foi portuguesa. Não conseguir perceber desde quando reside em Portugal.
- Nelson Sousa (eu) é português desde que nasceu, em 1977, em Leiria. Viveu toda a vida em Portugal (Leiria e Lisboa), excepto durante 1 ano em que morou em Estrasburgo (França). E não se sente mais português que nenhum dos referidos acima.
Nota adicional: protestei junto do provedor do tele-espectador da RTP, contra o tratamento dado a Obikwelu pela pivot do Desporto 2. A resposta que obtive é que, em virtude das inúmeras queixas de espectadores sobre a cobertura da RTP aos Jogos Olímpicos, o provedor vai dedicar o seu programa de 6 de Setembro integralmente ao tema.
Há quatro anos Francis Obikwelu, então atleta português recém-naturalizado, ganhou uma medalha de prata nos 100m nos Jogos Olímpicos de Atenas. A prova foi transmitida em directo no Telejornal e assim que terminou, a grande manchete era "Primeira medalha olímpica portuguesa na velocidade".
Há 4 anos ninguém tinha dúvidas que Obikwelu era português, que a sua medalha era portuguesa. Contudo...
Este ano foi diferente. Foi com a eliminação de Francis Obikwelu nos 100m e consequente abandono da carreira internacional, anunciado minutos depois, que me divorciei completamente da comunicação social portuguesa. Foi nesse momento que achei que a coisa tinha, pura e simplesmente, passado das marcas. E depois só piorou.
1. Após a eliminação, a pivot do programa Desporto 2, transmitido na RTP2 paga com o dinheiro dos contribuintes portugueses, conseguiu a proeza de se referir a Francis Obikwelu como "o atleta nigeriano"; na frase seguinte, Obikwelu passou a "luso-nigeriano" e na frase seguinte já era "atleta português de origem nigeriana". Não, isto não se admite! Nenhum órgão de comunicação social pode, por um lado, dizer que são "vitórias nossas" e no momento seguinte referir-se às "derrotas deles". Muito menos um órgão de comunicação social do estado, pago com dinheiros públicos e obrigado a prestar serviço público.
2. Poucos dias mais tarde, Naide Gomes que até ao momento era uma "atleta portuguesa" foi eliminada na qualificação do salto em comprimento. Em todas as notícias que li, nomeadamente no site do Público, a sua origem "são tomense" foi referida. Em TODAS as notícias, ela foi "atleta portuguesa de origem são tomense".
3. Gustavo Lima, que ao longo de toda a competição da classe Laser foi o "velejador português" passou subitamente, ao perder o pódio por 1 ponto, a ser "o velejador português nascido no Rio de Janeiro". No site do Público.
4. Talvez em virtude da onda de protestos que estes comentários depreciativos acerca da naturalidade dos atletas desencadearam, Nelson Évora passou a ser, em TODAS as notícias, referido como "atleta português, nascido na Costa do Marfim e filho de cabo-verdianos". Assim os órgãos de comunicação social defendem-se das acusações de parcialidade, referindo a naturalidade estrangeira de um atleta apenas quando perde.
Foi vergonhoso. É uma vergonha ver os órgãos de comunicação social a referir a naturalidade dos atletas, mas apenas de alguns. Porque ninguém disse, em nenhuma das notícias, qual a naturalidade de Vanessa Fernandes (é de Perosinho, Vila Nova de Gaia). O tema só surge quando se referem à sua família, que ainda lá mora, à forma como os seus conterrâneos vêem as provas, à festa que ocorreu em sua homenagem. A naturalidade de Vanessa Fernandes não é relevante quando se dá uma notícia sobre a sua participação numa prova, tenha corrido bem ou mal. Porque há-de ser relevante a naturalidade de Francis Obikwelu, Naide Gomes, Nelson Évora ou Gustavo Lima? A naturalidade de um atleta nascido em Braga, Castelo Branco, Almada, Coimbra ou Funchal é tão relevante quando a de um atleta nascido na Costa do Marfim, Nigéria, Guiné Bissau, Brasil, França ou São Tomé e Príncipe.
Os órgãos de comunicação social perceberam bem que meteram a pata na poça pela quantidade de comentários a esse respeito. E por isso salvaram a face referindo a origem Costa-marfinense de Nelson Évora. E podem dizer descansados que "não é só quando perdem, fizémos isso com todos!". O único problema é que... esqueceram-se de alguns: Jessica Augusto nasceu em França e Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau. Esqueceram-se de referir a naturalidade destes dois quando noticiaram as respectivas eliminações. Para a próxima, tomem nota das naturalidades dos atletas todos, podem vir a ser úteis.
E para terminar, uma pequena nota: considero meu compatriota todo aquele que assim tenha nascido e não manifeste vontade de deixar de o ser; e todo aquele que não o sendo de nascença manifeste a vontade de passar a sê-lo e assim concorde o Estado Português. A partir do momento em que o Estado Português reconhece alguém como meu compatriota, então, sê bem-vindo! Pelo que vi há tanto português "de gema" com vergonha de o ser que abraço qualquer estrangeiro que, tendo melhores opções, opta pela nacionalidade portuguesa. Não me importa onde nasceram. Isto também vale para futebolistas como Pepe, Deco (ambos brasileiros de origem), Bosingwa ou Makukula (ambos da República Democrática do Congo, ex-Zaire).
Notas:
- Francis Obikwelu nasceu na Nigéria, naturalizado português a partir de Outubro de 2001; radicou-se em Portugal em 1994, com 16 anos de idade.
- Nelson Évora nasceu na Costa do Marfim e é de ascendência cabo-verdiana; vive em Portugal desde os 5 anos de idade, tendo-se naturalizado português em 2002 (com 18 anos)
- Naide Gomes nasceu em São Tomé e Príncipe e naturalizou-se portuguesa em 2001. Vive em Portugal desde os 11 anos de idade.
- Gustavo Lima nasceu no Rio de Janeiro. Pelo que percebi, é português de nascença, tendo a família regressado a Portugal quando ainda era criança.
- Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau e reside em Portugal desde os 10 anos de idade. Naturalizou-se português aos 23 anos (em 2000 ou 2001, não conseguir determinar a data precisa).
- Jessica Augusto nasceu em França, mas pelo que pude determinar, desde sempre foi portuguesa. Não conseguir perceber desde quando reside em Portugal.
- Nelson Sousa (eu) é português desde que nasceu, em 1977, em Leiria. Viveu toda a vida em Portugal (Leiria e Lisboa), excepto durante 1 ano em que morou em Estrasburgo (França). E não se sente mais português que nenhum dos referidos acima.
Nota adicional: protestei junto do provedor do tele-espectador da RTP, contra o tratamento dado a Obikwelu pela pivot do Desporto 2. A resposta que obtive é que, em virtude das inúmeras queixas de espectadores sobre a cobertura da RTP aos Jogos Olímpicos, o provedor vai dedicar o seu programa de 6 de Setembro integralmente ao tema.
29 agosto 2008
JO2008 - Parte XI, Nelson Évora
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Nelson Évora sagrou-se campeão olímpico no triplo salto. Junta assim o mais cobiçado título do atletismo ao título mundial que conquistou no ano passado e ao 3º lugar nos mundiais de pista coberta em Fevereiro deste ano.
Acho que até é desnecessário dar os parabéns a Nelson Évora. Foi um feito histórico. Tornou-se o 4º campeão olímpico português, depois de Carlos Lopes em 84, Rosa Mota em 88 e Fernanda Ribeiro em 96. Graças a ele pudemos ouvir, 12 anos depois, o hino português no estádio olímpico.
Mas, olhemos com um pouco mais de atenção para o resultado de Nelson Évora. É que classificá-lo de extraordinário é pouco.
À partida havia 14 atletas com records pessoais acima de 17,50m. O líder desta lista é Jadel Gregório, com uns impressionantes 17,90, seguido de Marian Oprea com 17,80 e depois Nelson Évora com 17,74. Contudo, mais relevante ainda que as melhores marcas pessoais é a melhor marca desta época. E nas melhores marcas do ano temos Philip Idowu, o principal favorito, com 17,58, David Girat e Alexis Copello com 17,50 e lá para o meio da tabela, em 12º lugar, temos Nelson Évora em 12º com 17,33.
Note-se que 17,50 já é um salto "estratosférico" numa competição como os Jogos Olímpicos. 17,50 metros garantiram sempre uma medalha nas edições anteriores dos Jogos.
Nelson Évora qualificou-se com 17,34 (melhor marca pessoal do ano) ao segundo ensaio, após ter feito nulo no primeiro. Na final, Nelson Évora começou em segundo, atrás de Idowu que arrancou com um extraordinário 1º ensaio a 17,51. Ao segundo ensaio Nelson Évora melhor para 17,56. Ao terceiro ensaio Idowu faz 17,62 e Levan Sands bate o record nacional com 17,59, relegando Évora para o terceiro lugar. Entretanto Girat está em 4º, com 17,52 a escassos 4 cm de Évora. Se Girat melhorar pode atirar Nelson Évora para fora do pódio!
Não foi isso que aconteceu, Évora melhorou para 17,67 ao 4º ensaio, ninguém mais melhorou e ficou em primeiro. Mas... olhemos um pouco para os resultados:
1. Nelson Évora, 17,67
2. Philip Idowu, 17,62
3. Levan Sands, 17,59
4. David Girat, 17,52.
Destes 4 atletas, 3 deles bateram a melhor marca mundial do ano até aos jogos, que pertencia a Idowu com 17,58. Girat com um excelente resultado fica apenas em 4º.
Nelson Évora ganhou a medalha de ouro por apenas 5cm (a mais pequena diferença de sempre), Sands fica a em terceiro a apenas 8cm da medalha de ouro e Girat, que saltou só 15cm a menos que Évora, fica fora do pódio.
Já deu para perceber o quão à justa foi? Não tira mérito nenhum a Nelson Évora, antes pelo contrário! Foi o mais competitivo concurso de triplo salto da história dos Jogos Olímpicos e Nelson Évora ganhou! Mas... e se?
E se Évora não tem melhorado os seus 17,56, que já eram uma marca extraordinária? Ficaria em terceiro.
E se Évora tem feito apenas 17,51, o que mesmo assim já eram 17cm a mais que a marca da qualificação (e sua melhor da época)? Ficaria em 4º, fora das medalhas. Por uma unha negra, mas fora das medalhas.
E então? O que teria acontecido? Nelson Évora seria apenas "mais um que foi lá para gastar dinheiro e nem uma medalha trouxe". Se tem saltado "apenas" 17,50 teria ficado em 4º, a menos de um palmo da medalha de ouro. E seria mais um a juntar ao rol das "desilusões nacionais".
Mas não foi isso que aconteceu, e ainda bem. Nelson Évora merece mesmo esta medalha, e mostrou que é o melhor triplista da actualidade.
Mas porque é que Évora se torna heroi nacional porque ganhou (mesmo que por uma unha negra), e os que falharam por uma unha negra são umas bestas? Onde está o meio termo? O que é um resultado "assim-assim"? E um resultado "bom, mas não excepcional"?
O que percebi, é que não há. Entre o 8 e o 80 não há nada em Portugal. As coisas são sempre excepcionais. Ou pela positiva, ou pela negativa. O que não deixa de ser estranho num país em que a resposta nº 1 à pergunta "então, como vai a vida?" é "vai-se andando".
As consequências da medalha de ouro de Nelson Évora foram imediatas: de repente fazem-se as pazes com os resultados, os portugueses já podem sentir orgulho na sua equipa olímpica, e a contestação de há apenas 2 ou 3 dias esbateu-se como ruido de fundo entre gritos de "Viva Portugal" e "Somos campeões". Em apenas 2 ou 3 segundos (o tempo que demora a saltar 17,67m) passámos de "os piores" a "os melhores". Até a comunicação social, que aproveitou a escassez de notícias típica de Agosto para procurar polémicas em Pequim, começou imediatamente a falar na "melhor prestação de sempre". 1 dia antes dizia-se que "Vicente Moura não se recandidata face aos maus resultados"; 2 dias antes falava-se na "falta de brio e empenho dos atletas"; Uma semana antes falava-se de "ainda não termos subido ao pódio ao fim de uma semana de jogos". Mas agora, já está tudo para trás das costas. Ganhou, é só isso que importa!
E agora é até escusado virem acusar a comunicação social de ter provocado pressão sobre os atletas. Porque se a Vanessa Fernandes e o Nelson Évora conseguiram aguentar a pressão (são os verdadeiros campeões), os outros também o deveriam ter feito (não serão verdadeiros campeões de certeza). Além disso, esta foi "a melhor prestação olímpica de sempre"!!! E o resto, infelizmente, é só conversa.
Mas sobre os "pecados" da comunicação social falo nos próximos capítulos.
Nota: Nelson Évora tem 24 anos, é estudante do ensino superior e atleta do Benfica. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde 09/2005 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês), passando ao nível I (bolsa de 1250 euros/mês) em 09/2007. Esta é a sua segunda participação olímpica, tendo ficado em 40º lugar no triplo salto em Atenas.
Próximos episódios:
- Portugueses e estrangeiros
- Uma de ouro, uma de prata
Nelson Évora sagrou-se campeão olímpico no triplo salto. Junta assim o mais cobiçado título do atletismo ao título mundial que conquistou no ano passado e ao 3º lugar nos mundiais de pista coberta em Fevereiro deste ano.
Acho que até é desnecessário dar os parabéns a Nelson Évora. Foi um feito histórico. Tornou-se o 4º campeão olímpico português, depois de Carlos Lopes em 84, Rosa Mota em 88 e Fernanda Ribeiro em 96. Graças a ele pudemos ouvir, 12 anos depois, o hino português no estádio olímpico.
Mas, olhemos com um pouco mais de atenção para o resultado de Nelson Évora. É que classificá-lo de extraordinário é pouco.
À partida havia 14 atletas com records pessoais acima de 17,50m. O líder desta lista é Jadel Gregório, com uns impressionantes 17,90, seguido de Marian Oprea com 17,80 e depois Nelson Évora com 17,74. Contudo, mais relevante ainda que as melhores marcas pessoais é a melhor marca desta época. E nas melhores marcas do ano temos Philip Idowu, o principal favorito, com 17,58, David Girat e Alexis Copello com 17,50 e lá para o meio da tabela, em 12º lugar, temos Nelson Évora em 12º com 17,33.
Note-se que 17,50 já é um salto "estratosférico" numa competição como os Jogos Olímpicos. 17,50 metros garantiram sempre uma medalha nas edições anteriores dos Jogos.
Nelson Évora qualificou-se com 17,34 (melhor marca pessoal do ano) ao segundo ensaio, após ter feito nulo no primeiro. Na final, Nelson Évora começou em segundo, atrás de Idowu que arrancou com um extraordinário 1º ensaio a 17,51. Ao segundo ensaio Nelson Évora melhor para 17,56. Ao terceiro ensaio Idowu faz 17,62 e Levan Sands bate o record nacional com 17,59, relegando Évora para o terceiro lugar. Entretanto Girat está em 4º, com 17,52 a escassos 4 cm de Évora. Se Girat melhorar pode atirar Nelson Évora para fora do pódio!
Não foi isso que aconteceu, Évora melhorou para 17,67 ao 4º ensaio, ninguém mais melhorou e ficou em primeiro. Mas... olhemos um pouco para os resultados:
1. Nelson Évora, 17,67
2. Philip Idowu, 17,62
3. Levan Sands, 17,59
4. David Girat, 17,52.
Destes 4 atletas, 3 deles bateram a melhor marca mundial do ano até aos jogos, que pertencia a Idowu com 17,58. Girat com um excelente resultado fica apenas em 4º.
Nelson Évora ganhou a medalha de ouro por apenas 5cm (a mais pequena diferença de sempre), Sands fica a em terceiro a apenas 8cm da medalha de ouro e Girat, que saltou só 15cm a menos que Évora, fica fora do pódio.
Já deu para perceber o quão à justa foi? Não tira mérito nenhum a Nelson Évora, antes pelo contrário! Foi o mais competitivo concurso de triplo salto da história dos Jogos Olímpicos e Nelson Évora ganhou! Mas... e se?
E se Évora não tem melhorado os seus 17,56, que já eram uma marca extraordinária? Ficaria em terceiro.
E se Évora tem feito apenas 17,51, o que mesmo assim já eram 17cm a mais que a marca da qualificação (e sua melhor da época)? Ficaria em 4º, fora das medalhas. Por uma unha negra, mas fora das medalhas.
E então? O que teria acontecido? Nelson Évora seria apenas "mais um que foi lá para gastar dinheiro e nem uma medalha trouxe". Se tem saltado "apenas" 17,50 teria ficado em 4º, a menos de um palmo da medalha de ouro. E seria mais um a juntar ao rol das "desilusões nacionais".
Mas não foi isso que aconteceu, e ainda bem. Nelson Évora merece mesmo esta medalha, e mostrou que é o melhor triplista da actualidade.
Mas porque é que Évora se torna heroi nacional porque ganhou (mesmo que por uma unha negra), e os que falharam por uma unha negra são umas bestas? Onde está o meio termo? O que é um resultado "assim-assim"? E um resultado "bom, mas não excepcional"?
O que percebi, é que não há. Entre o 8 e o 80 não há nada em Portugal. As coisas são sempre excepcionais. Ou pela positiva, ou pela negativa. O que não deixa de ser estranho num país em que a resposta nº 1 à pergunta "então, como vai a vida?" é "vai-se andando".
As consequências da medalha de ouro de Nelson Évora foram imediatas: de repente fazem-se as pazes com os resultados, os portugueses já podem sentir orgulho na sua equipa olímpica, e a contestação de há apenas 2 ou 3 dias esbateu-se como ruido de fundo entre gritos de "Viva Portugal" e "Somos campeões". Em apenas 2 ou 3 segundos (o tempo que demora a saltar 17,67m) passámos de "os piores" a "os melhores". Até a comunicação social, que aproveitou a escassez de notícias típica de Agosto para procurar polémicas em Pequim, começou imediatamente a falar na "melhor prestação de sempre". 1 dia antes dizia-se que "Vicente Moura não se recandidata face aos maus resultados"; 2 dias antes falava-se na "falta de brio e empenho dos atletas"; Uma semana antes falava-se de "ainda não termos subido ao pódio ao fim de uma semana de jogos". Mas agora, já está tudo para trás das costas. Ganhou, é só isso que importa!
E agora é até escusado virem acusar a comunicação social de ter provocado pressão sobre os atletas. Porque se a Vanessa Fernandes e o Nelson Évora conseguiram aguentar a pressão (são os verdadeiros campeões), os outros também o deveriam ter feito (não serão verdadeiros campeões de certeza). Além disso, esta foi "a melhor prestação olímpica de sempre"!!! E o resto, infelizmente, é só conversa.
Mas sobre os "pecados" da comunicação social falo nos próximos capítulos.
Nota: Nelson Évora tem 24 anos, é estudante do ensino superior e atleta do Benfica. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde 09/2005 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês), passando ao nível I (bolsa de 1250 euros/mês) em 09/2007. Esta é a sua segunda participação olímpica, tendo ficado em 40º lugar no triplo salto em Atenas.
Próximos episódios:
- Portugueses e estrangeiros
- Uma de ouro, uma de prata
JO2008 - Parte X, Razões e desculpas
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Após a eliminação surpresa de Naide Gomes viveu-se em Portugal uma era conturbada. Digo que foi uma era porque o ritmo das notícias, das opiniões, dos comentários, a visibilidade do tema, dava a entender que a situação se arrastava há anos. E digo que se viveu porque apenas 48h depois (tema a discutir no próximo capítulo) a tempestade desapareceu e entrámos na era da bonança.
Gustavo Lima
O tom de críticas aos atletas olímpicos subiu de tom de tal forma que Gustavo Lima, que perdeu a medalha de bronze por 1 ponto, decidiu desistir da vela. Espero (e acredito que esperem muito mais de metade dos portugueses) que ele reconsidere.
Depois do 6º lugar em Sidney, do 5º lugar em Atenas, do 4º lugar em Pequim, queria mesmo muito vê-lo subir ao pódio. Poucos atletas se sentirão tão injustiçados pela opinião pública portuguesa como Gustavo Lima se sente neste momento.
A opinião pública neste momento criticava os atletas por terem ido a Pequim gastar dinheiro dos nossos impostos (assunto sobre o qual falarei mais à frente), por estarem em Pequim mais a passear que a competir e, obviamente, porque ninguém consegue o raio de uma medalha. Ninguém, não! Porque a medalha de prata conseguida por Vanessa Fernandes só veio dar mais um argumento ao Zé: "Tão a ver, a Vanessa é que é, ela trabalha e traz uma medalha, não fica de fora por um ponto, nem é eliminada. Ela é que é uma grande atleta!".
Lembrem-se que Gustavo Lima falhou a medalha de bronze por um ponto. Vai ser relevante no próximo post.
Em defesa de Gustavo Lima podia-se dizer que do Clube Naval de Cascais, segundo palavras do próprio, só recebe mensagens SMS ou e-mails a agradecer a boa representação que faz do clube. E que da Federação Portuguesa de Vela obteve 10 treinos mensais com treinador. Acho razoável supor que os medalhados olímpicos disponham de treinador próprio, com o qual treinem todos os dias, mas como não conheço a situação da vela, prefiro não especular.
Espero que Gustavo Lima reconsidere e que continue na vela. Porque que os Jogos Olímpicos devem-lhe uma medalha e os portugueses devem-lhe um pedido de desculpas.
Por favor, desculpem
Todo o clima que se viveu em torno da comitiva portuguesa deu azo a situações que roçam o ridículo! Emanuel Silva, após falhar a qualificação para a final dos 1000m na canoagem, disse que fez o seu melhor e que "se desiludi alguém, peço desculpas". Agora todo e qualquer atleta que enfrenta os jornalistas vem de peito cheio, a falar na importância de representar Portugal, defendendo o seu desempenho e pedindo desculpas, contrito, se não conseguiu o apuramento ou a medalha. Fosse ou não um resultado expectável. Foi a este ponto que chegámos: qualquer atleta sente que, se não ganhar, os portugueses vão dizer que mais valia não ter ido. Num dia passa à fase seguinte e é usado como exemplo de dedicação, no dia seguinte perde uma medalha e é acusado de falta de empenho. Por vezes pelas mesmas pessoas que o louvaram na véspera!
Mas... um pouco de história.
Há 4 anos, Emanuel Silva era um desconhecido. Chegou aos jogos olímpicos, tornando-se, salvo erro, o primeiro português a fazê-lo. Qualificou-se para uma final e uma meia-final na canoagem. ERA O MAIOR!!! O maior feito da canoagem portuguesa de sempre! Só à conta dele houve imensos jovens a começar a praticar canoagem. Como resultado este ano temos outras 3 atletas na canoagem: uma em singulares e uma dupla. Em Atenas Emanuel Silva teve honras de reportagem, entrevistas, artigos no jornal a louvar os seus feitos. Pouco faltou para aparecer um novo Camões a transcrever o seu heroísmo em poema.
4 anos depois, falhou a final por 35 milésimos de segundo (na televisão até dá a ideia que até cortou a meta à frente), ficando em 4º da sua meia-final. E vem pedir desculpas se alguém se sente desiludido. Porque nem se atreve a dizer que chegar à meia-final é um bom resultado, não vá alguém acusá-lo de não se aplicar com afinco, de estar em Pequim só para passear, de não dignificar as cores portuguesas.
Também se apurou para a meia-final de K1 500m e ficou em 5º na sua série, falhando também o apuramento para a final. As outras atletas também chegaram às respectivas meias finais, não conseguindo o apuramento para a final. A todos, muitos parabéns! Para um país que há 4 anos não tinha canoagem olímpica fizeram um verdadeiro milagre em Pequim! Espero ver-vos em 2012 em Londres.
Em defesa de Emanuel Silva e dos restantes atletas da canoagem, se tal fosse necessário, poder-se-ia dizer que em Portugal não existe ainda uma pista de canoagem. Está uma em construção, mas não existe. Não faço ideia como se fazem as marcações de distâncias ou de pistas. Também não sei onde se treina, se usam rios ou barragens ou se treinam com frequência no estrangeiro.
Vicente Moura
Em face dos resultados (eliminação de Naide Gomes e 4º lugar de Gustavo Lima), Vicente Moura disse que não continuaria à frente do COP. A notícia até foi dada como se ele tivesse dito que se demitia, vindo depois o próprio a dizer que leva o mandato até ao fim (Dezembro de 2008) mas que não se candidata a novo mandato.
Acho que sim senhor, fica bem. Ainda durante os jogos o presidente do COP diz que vai largar o barco, que os resultados ficam abaixo do esperado. Como se não houvesse críticas suficientes vem o responsável máximo dizer que a coisa correu mal.
Seria o mesmo que um treinador demitir-se ao intervalo de um jogo, porque está a perder e já não é possível dar a volta.
De um atleta espera-se que dê o máximo (e todos deram, que não restem dúvidas!) até ao fim da prova. De um dirigente espera-se que leve a missão até ao fim e que só faça balanços no final das provas. Não é a meio, quando ainda faltam competir uns 20 atletas, que se vem fazer balanços finais.
Claro que, por um lado, Vicente Moura tinha razão: até à eliminação de Naide Gomes as nossas esperanças de 4 medalhas estavam intactas. Ela era candidata a medalha, Nelson Évora também e Gustavo Lima partia para a última regata em terceiro da geral.
Mas se calhar, caso tivesse ficado calado logo na véspera quando veio falar no brio e profissionalismo, nem Naide Gomes teria sido eliminada, nem Gustavo Lima teria ficado em 4º. Não quero dizer que a culpa do fracasso destes atletas é de um dirigente, longe disso. O mérito quando ganham é deles, a responsabilidade pelo fracasso é, em última análise, deles também. Mas que não ajuda ter a sua dedicação posta em causa na véspera da prova decisiva, lá isso não.
Nota 1: Gustavo Lima tem 31 anos e é velejador profissional do Clube Naval de Cascais. Participou pela terceira vez nuns Jogos Olímpicos. Foi integrado no projecto Pequim 2008 em Setembro de 2004 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês). Entre 08/2006 e 07/2007 esteve integrado no nível I (bolsa de 1250 euros/mês), voltando ao nível II em 08/2007.
Nota 2:Emanuel Silva tem 22 anos e estuda no 12º ano. É atleta do Clube Náutico do Prado. Participou pela 2ª vez nos Jogos Olímpicos. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde Setembro de 2004, no nível II (bolsa de 1000 euros/mês).
Após a eliminação surpresa de Naide Gomes viveu-se em Portugal uma era conturbada. Digo que foi uma era porque o ritmo das notícias, das opiniões, dos comentários, a visibilidade do tema, dava a entender que a situação se arrastava há anos. E digo que se viveu porque apenas 48h depois (tema a discutir no próximo capítulo) a tempestade desapareceu e entrámos na era da bonança.
Gustavo Lima
O tom de críticas aos atletas olímpicos subiu de tom de tal forma que Gustavo Lima, que perdeu a medalha de bronze por 1 ponto, decidiu desistir da vela. Espero (e acredito que esperem muito mais de metade dos portugueses) que ele reconsidere.
Depois do 6º lugar em Sidney, do 5º lugar em Atenas, do 4º lugar em Pequim, queria mesmo muito vê-lo subir ao pódio. Poucos atletas se sentirão tão injustiçados pela opinião pública portuguesa como Gustavo Lima se sente neste momento.
A opinião pública neste momento criticava os atletas por terem ido a Pequim gastar dinheiro dos nossos impostos (assunto sobre o qual falarei mais à frente), por estarem em Pequim mais a passear que a competir e, obviamente, porque ninguém consegue o raio de uma medalha. Ninguém, não! Porque a medalha de prata conseguida por Vanessa Fernandes só veio dar mais um argumento ao Zé: "Tão a ver, a Vanessa é que é, ela trabalha e traz uma medalha, não fica de fora por um ponto, nem é eliminada. Ela é que é uma grande atleta!".
Lembrem-se que Gustavo Lima falhou a medalha de bronze por um ponto. Vai ser relevante no próximo post.
Em defesa de Gustavo Lima podia-se dizer que do Clube Naval de Cascais, segundo palavras do próprio, só recebe mensagens SMS ou e-mails a agradecer a boa representação que faz do clube. E que da Federação Portuguesa de Vela obteve 10 treinos mensais com treinador. Acho razoável supor que os medalhados olímpicos disponham de treinador próprio, com o qual treinem todos os dias, mas como não conheço a situação da vela, prefiro não especular.
Espero que Gustavo Lima reconsidere e que continue na vela. Porque que os Jogos Olímpicos devem-lhe uma medalha e os portugueses devem-lhe um pedido de desculpas.
Por favor, desculpem
Todo o clima que se viveu em torno da comitiva portuguesa deu azo a situações que roçam o ridículo! Emanuel Silva, após falhar a qualificação para a final dos 1000m na canoagem, disse que fez o seu melhor e que "se desiludi alguém, peço desculpas". Agora todo e qualquer atleta que enfrenta os jornalistas vem de peito cheio, a falar na importância de representar Portugal, defendendo o seu desempenho e pedindo desculpas, contrito, se não conseguiu o apuramento ou a medalha. Fosse ou não um resultado expectável. Foi a este ponto que chegámos: qualquer atleta sente que, se não ganhar, os portugueses vão dizer que mais valia não ter ido. Num dia passa à fase seguinte e é usado como exemplo de dedicação, no dia seguinte perde uma medalha e é acusado de falta de empenho. Por vezes pelas mesmas pessoas que o louvaram na véspera!
Mas... um pouco de história.
Há 4 anos, Emanuel Silva era um desconhecido. Chegou aos jogos olímpicos, tornando-se, salvo erro, o primeiro português a fazê-lo. Qualificou-se para uma final e uma meia-final na canoagem. ERA O MAIOR!!! O maior feito da canoagem portuguesa de sempre! Só à conta dele houve imensos jovens a começar a praticar canoagem. Como resultado este ano temos outras 3 atletas na canoagem: uma em singulares e uma dupla. Em Atenas Emanuel Silva teve honras de reportagem, entrevistas, artigos no jornal a louvar os seus feitos. Pouco faltou para aparecer um novo Camões a transcrever o seu heroísmo em poema.
4 anos depois, falhou a final por 35 milésimos de segundo (na televisão até dá a ideia que até cortou a meta à frente), ficando em 4º da sua meia-final. E vem pedir desculpas se alguém se sente desiludido. Porque nem se atreve a dizer que chegar à meia-final é um bom resultado, não vá alguém acusá-lo de não se aplicar com afinco, de estar em Pequim só para passear, de não dignificar as cores portuguesas.
Também se apurou para a meia-final de K1 500m e ficou em 5º na sua série, falhando também o apuramento para a final. As outras atletas também chegaram às respectivas meias finais, não conseguindo o apuramento para a final. A todos, muitos parabéns! Para um país que há 4 anos não tinha canoagem olímpica fizeram um verdadeiro milagre em Pequim! Espero ver-vos em 2012 em Londres.
Em defesa de Emanuel Silva e dos restantes atletas da canoagem, se tal fosse necessário, poder-se-ia dizer que em Portugal não existe ainda uma pista de canoagem. Está uma em construção, mas não existe. Não faço ideia como se fazem as marcações de distâncias ou de pistas. Também não sei onde se treina, se usam rios ou barragens ou se treinam com frequência no estrangeiro.
Vicente Moura
Em face dos resultados (eliminação de Naide Gomes e 4º lugar de Gustavo Lima), Vicente Moura disse que não continuaria à frente do COP. A notícia até foi dada como se ele tivesse dito que se demitia, vindo depois o próprio a dizer que leva o mandato até ao fim (Dezembro de 2008) mas que não se candidata a novo mandato.
Acho que sim senhor, fica bem. Ainda durante os jogos o presidente do COP diz que vai largar o barco, que os resultados ficam abaixo do esperado. Como se não houvesse críticas suficientes vem o responsável máximo dizer que a coisa correu mal.
Seria o mesmo que um treinador demitir-se ao intervalo de um jogo, porque está a perder e já não é possível dar a volta.
De um atleta espera-se que dê o máximo (e todos deram, que não restem dúvidas!) até ao fim da prova. De um dirigente espera-se que leve a missão até ao fim e que só faça balanços no final das provas. Não é a meio, quando ainda faltam competir uns 20 atletas, que se vem fazer balanços finais.
Claro que, por um lado, Vicente Moura tinha razão: até à eliminação de Naide Gomes as nossas esperanças de 4 medalhas estavam intactas. Ela era candidata a medalha, Nelson Évora também e Gustavo Lima partia para a última regata em terceiro da geral.
Mas se calhar, caso tivesse ficado calado logo na véspera quando veio falar no brio e profissionalismo, nem Naide Gomes teria sido eliminada, nem Gustavo Lima teria ficado em 4º. Não quero dizer que a culpa do fracasso destes atletas é de um dirigente, longe disso. O mérito quando ganham é deles, a responsabilidade pelo fracasso é, em última análise, deles também. Mas que não ajuda ter a sua dedicação posta em causa na véspera da prova decisiva, lá isso não.
Nota 1: Gustavo Lima tem 31 anos e é velejador profissional do Clube Naval de Cascais. Participou pela terceira vez nuns Jogos Olímpicos. Foi integrado no projecto Pequim 2008 em Setembro de 2004 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês). Entre 08/2006 e 07/2007 esteve integrado no nível I (bolsa de 1250 euros/mês), voltando ao nível II em 08/2007.
Nota 2:Emanuel Silva tem 22 anos e estuda no 12º ano. É atleta do Clube Náutico do Prado. Participou pela 2ª vez nos Jogos Olímpicos. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde Setembro de 2004, no nível II (bolsa de 1000 euros/mês).
28 agosto 2008
Descaramento
Roubar uma caixa multibanco é crime. Roubar uma caixa multibanco dentro de um tribunal é puro descaramento.
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