Fui ao Zoo. Já não ia lá há perto de... 25 anos?! Devo dizer que o Zoo de Lisboa já não tem nada a ver com as recordações que eu ainda tinha. Quando lá fui a última vez era velho, com muitas estruturas em mau estado e o deprimente elefante a tocar a sineta a troco de moedas.
O elevante das moedas já terá morrido, ou pelo menos já não toca a sineta, as estruturas estão recuperadas, os animais têm boas condições de habitabilidade (tanto quanto se consegue ter num Zoo, sobretudo um tão pequeno como o nosso) e o programa de apadrinhamento de animais por parte de empresas está a funcionar. Garante receitas para o Zoo e retorno publicitário para as empresas (adivinhem quem patrocina o jaguar!).
A malta em geral só vai ao Zoo quanto tem miudos pequenos (filhos, sobrinhos, primos, etc). Não façam isso. Vão lá, mesmo que não tenham a desculpa de ir só "fazer compania ao miudo".
Pontos altos da visita:
Vi os okapis ao vivo! Yeeee! Há já uns anos que o Zoo tem anunciado os okapis como as estrelas da companhia e devo confessar a minha ignorância: quando vi o anúncio as primeiras vezes não fazia ideia do que raio era um okapi. É engraçado em fotografia, mais ainda ao vivo.
E fiz festinhas num leão marinho! Parte do show de acrobacias dos leões marinhos e golfinhos (com a participação de uma guest star, uma baleia piloto que deu à costa há uns tempos na Nazaré e que se chama... Nazaré) consiste em levar o leão marinho a passear-se no meio do público e "dar beijinhos" (ou melhor, marradas) às pessoas. Eu ainda levei um beijinho na bochecha do anfíbio gordo (nota: para mim mamíferos que passam a maior parte do tempo na água são anfíbios ou peixes; os golfinhos e baleias são peixes, as focas e leões marinhos são anfíbios). O animal pesa uns 400 milhões de quilos e quando o vi esticar-se na minha direcção fiquei um bocado surpreendido (diria que apanhei um susto, mas sou demasiado macho para admitir uma coisa dessas).
Preço do bilhete: 16 euros. Dinheiro bem gasto!
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06 maio 2009
27 abril 2009
email descartável
Quando me registo num site qualquer penso sempre se devia ou não dar o meu endereço de email. É que há sempre o risco de começar a receber spam à conta desse registo. Mas agora há a solução ideal: o mailinator!
Como funciona?
1. Inventam um endereço de email qualquer. A sério, qualquer um serve. pode ser abracadabra@mailinator.com.
2. Registam-se no tal site do qual contam receber spam com alguma frequência dando o endereço do mailinator como se fosse o vosso endereço de email.
3. Vão ao site do mailinator ver o mail. Não há registos, não há passwords, não há nada. Assim que um mail chega a uma conta de email, a conta é criada.
Depois podem esquecer-se desta conta e da próxima vez inventam um endereço novo.
Ah, sim: é bem possível que encontrem mails nessas mailboxes que não eram para vocês. Outras pessoas podem ter dado o mesmo endereço num qualquer site. Mas como à partida estas contas só servem para receber lixo...
(obrigado Pedro)
Como funciona?
1. Inventam um endereço de email qualquer. A sério, qualquer um serve. pode ser abracadabra@mailinator.com.
2. Registam-se no tal site do qual contam receber spam com alguma frequência dando o endereço do mailinator como se fosse o vosso endereço de email.
3. Vão ao site do mailinator ver o mail. Não há registos, não há passwords, não há nada. Assim que um mail chega a uma conta de email, a conta é criada.
Depois podem esquecer-se desta conta e da próxima vez inventam um endereço novo.
Ah, sim: é bem possível que encontrem mails nessas mailboxes que não eram para vocês. Outras pessoas podem ter dado o mesmo endereço num qualquer site. Mas como à partida estas contas só servem para receber lixo...
(obrigado Pedro)
13 abril 2009
Há boas ideias e há Boas Ideias!
Nunca vos aconteceu fechar uma janela do browser e no instante seguinte dizerem "Merda! Não era para fechar esta!"?
Bom, a vós talvez nunca tenha acontecido, a mim está sempre a acontecer... é por isso que adoro o Google Chrome! Se fechei um separador (ou uma janela) que não queria ter fechado, basta abrir um novo separador. Por defeito aparecem, além de outras coisas úteis, a lista dos separadores que fechei recentemente. Com a grande vantagem de manter o histórico de navegação. Ou seja, posso re-abrir uma página e carregar no back para voltar ao sítio onde estava antes...
É por estas e por outras que sou fan dos produtos Google! (além do Chrome e do Blogger, uso o Gmail, iGoogle, Youtube, Google Docs, Google Calendar, Google Maps, Google Analytics, Google Images, Google Desktop, Google Groups e, claro, o próprio Google!)
Bom, a vós talvez nunca tenha acontecido, a mim está sempre a acontecer... é por isso que adoro o Google Chrome! Se fechei um separador (ou uma janela) que não queria ter fechado, basta abrir um novo separador. Por defeito aparecem, além de outras coisas úteis, a lista dos separadores que fechei recentemente. Com a grande vantagem de manter o histórico de navegação. Ou seja, posso re-abrir uma página e carregar no back para voltar ao sítio onde estava antes...
É por estas e por outras que sou fan dos produtos Google! (além do Chrome e do Blogger, uso o Gmail, iGoogle, Youtube, Google Docs, Google Calendar, Google Maps, Google Analytics, Google Images, Google Desktop, Google Groups e, claro, o próprio Google!)
15 dezembro 2008
Feliz Natal, são os votos dos nossos patrocinadores
Chateia-me que o Marquês de Pombal e a Praça do Comércio estejam carregados de logótipos da TMN. Chateia-me à brava. Tá bem, eles pagaram a iluminação, mas não dava para lhes sacar o guito sem encher as principais praças de Lisboa com publicidade que entra pelos olhos dentro?
Será que isto não incomoda a presidência da câmara de Lisboa? Já se sabe que a CML tá nas lonas e precisa de guito para poder pagar facturas e juros de empréstimos. Mas não dava para fazer algum dinheiro, mesmo que fosse menos, com algo menos invasivo? Algo menos declaradamente publicitário? É que "iluminação patrocinada" e "anúncio comercial" são coisas bastante distintas! Um patrocínio é um pequeno logótipo em posição secundária, a lembrar quem pagou as contas. Num anúncio a mensagem da empresa ou a sua imagem estão em primeiro plano e procuram a máxima visibilidade para criar no destinatário a predisposição para a aquisição dos bens ou serviços. É precisamente isto que se passa nas principais praças de Lisboa. O facto de serem iluminações de Natal tornou-se completamente secundário. As luzes ali presentes não têm estrelas, nem anjos, nem mensagens de "feliz Natal". Só mesmo o gigantesco (e feio) logótipo da TMN.
Mas, sobretudo, chateia-me o patrocínio da Samsung à iluminação do Cristo-Rei. Tá iluminado (e de forma bem pirosa, diga-se) com leds a fazer um qualquer desenho que supostamente é uma representação de um anjo, e na base do monumento, a estátua de Cristo de braços abertos a olhar sobre Lisboa, um gigantesco logótipo da Samsung!
Que a CML está falida, já se sabe. Mas a Câmara de Almada está assim a precisar tanto de dinheiro que corrompa tão facilmente o seu principal monumento, figura omnipresente da travessia do Tejo pela 25 de Abril? Para a Samsung, está-se bem a ver, é um excelente negócio. O tempo necessário para a travessia da ponte cresce à medida que o Natal se aproxima e não dá para estar parado na ponte sem ver em permanência a sua mensagem publicitária, ali aos pés do Cristo-rei.
Espero que o negócio tenha sido volumoso. Muito volumoso. Que as câmaras municipais em causa tenham conseguido, pelo menos, sanear as suas delicadas situações financeiras, a bem dos seus munícipes. Que esta promiscuidade entre Natal e publicidade seja, pelo menos, um mal necessário para a continuação de serviços públicos de qualidade em duas das maiores cidades do país. Fico muito menos ofendido se me disserem "eh pá, nós também não gostamos, mas estamos um bocado de mãos atadas". Porque se foi por uma ninharia (e umas dezenas de milhar de euros são uma ninharia), sinceramente meus senhores, tenham vergonha na cara.
Ah, e porque vem a propósito: o Natal é, sobretudo, a festa da família. Reunimo-nos na noite de 24, trocamos presentes com as pessoas de quem mais gostamos, lembramo-nos da razão porque estamos juntos e recarregamos baterias para voltar ao mundo real dois ou três dias depois. Não é pelos presentes, seja pelo seu valor ou pelo símbolo de sucesso que representam, não é pelos doces, não é pelo subsídio de Natal. No Natal o subsídio é pago para permitir um maior conforto material na quadra festiva, os doces servem para confortar o estômago (e o conforto do estômago conforta a alma) e os presentes são um gesto para com as pessoas mais próximas a dizer que gostamos delas. Mas... experimentem um Natal carregado de presentes e doces e subsídios passado sozinho em casa a ver se é a mesma coisa. Ou então experimentem um Natal com uma refeição banal e uma qualquer sobremesa instântanea, sem presentes e com a conta a zeros mas junto das pessoas que importam. Continua a ser Natal, mesmo sem um telemóvel novo ou um plasma de 42".
Será que isto não incomoda a presidência da câmara de Lisboa? Já se sabe que a CML tá nas lonas e precisa de guito para poder pagar facturas e juros de empréstimos. Mas não dava para fazer algum dinheiro, mesmo que fosse menos, com algo menos invasivo? Algo menos declaradamente publicitário? É que "iluminação patrocinada" e "anúncio comercial" são coisas bastante distintas! Um patrocínio é um pequeno logótipo em posição secundária, a lembrar quem pagou as contas. Num anúncio a mensagem da empresa ou a sua imagem estão em primeiro plano e procuram a máxima visibilidade para criar no destinatário a predisposição para a aquisição dos bens ou serviços. É precisamente isto que se passa nas principais praças de Lisboa. O facto de serem iluminações de Natal tornou-se completamente secundário. As luzes ali presentes não têm estrelas, nem anjos, nem mensagens de "feliz Natal". Só mesmo o gigantesco (e feio) logótipo da TMN.
Mas, sobretudo, chateia-me o patrocínio da Samsung à iluminação do Cristo-Rei. Tá iluminado (e de forma bem pirosa, diga-se) com leds a fazer um qualquer desenho que supostamente é uma representação de um anjo, e na base do monumento, a estátua de Cristo de braços abertos a olhar sobre Lisboa, um gigantesco logótipo da Samsung!
Que a CML está falida, já se sabe. Mas a Câmara de Almada está assim a precisar tanto de dinheiro que corrompa tão facilmente o seu principal monumento, figura omnipresente da travessia do Tejo pela 25 de Abril? Para a Samsung, está-se bem a ver, é um excelente negócio. O tempo necessário para a travessia da ponte cresce à medida que o Natal se aproxima e não dá para estar parado na ponte sem ver em permanência a sua mensagem publicitária, ali aos pés do Cristo-rei.
Espero que o negócio tenha sido volumoso. Muito volumoso. Que as câmaras municipais em causa tenham conseguido, pelo menos, sanear as suas delicadas situações financeiras, a bem dos seus munícipes. Que esta promiscuidade entre Natal e publicidade seja, pelo menos, um mal necessário para a continuação de serviços públicos de qualidade em duas das maiores cidades do país. Fico muito menos ofendido se me disserem "eh pá, nós também não gostamos, mas estamos um bocado de mãos atadas". Porque se foi por uma ninharia (e umas dezenas de milhar de euros são uma ninharia), sinceramente meus senhores, tenham vergonha na cara.
Ah, e porque vem a propósito: o Natal é, sobretudo, a festa da família. Reunimo-nos na noite de 24, trocamos presentes com as pessoas de quem mais gostamos, lembramo-nos da razão porque estamos juntos e recarregamos baterias para voltar ao mundo real dois ou três dias depois. Não é pelos presentes, seja pelo seu valor ou pelo símbolo de sucesso que representam, não é pelos doces, não é pelo subsídio de Natal. No Natal o subsídio é pago para permitir um maior conforto material na quadra festiva, os doces servem para confortar o estômago (e o conforto do estômago conforta a alma) e os presentes são um gesto para com as pessoas mais próximas a dizer que gostamos delas. Mas... experimentem um Natal carregado de presentes e doces e subsídios passado sozinho em casa a ver se é a mesma coisa. Ou então experimentem um Natal com uma refeição banal e uma qualquer sobremesa instântanea, sem presentes e com a conta a zeros mas junto das pessoas que importam. Continua a ser Natal, mesmo sem um telemóvel novo ou um plasma de 42".
21 novembro 2008
Matrículas
Não são as da escola, são as outras, as dos carros.
A minha não foi cancelada. E a vossa? (se compraram um carro em segunda mão e não procederam ao registo pode-vos acontecer...)
A minha não foi cancelada. E a vossa? (se compraram um carro em segunda mão e não procederam ao registo pode-vos acontecer...)
12 novembro 2008
Os animais são nossos amigos!
E ensinam-nos coisas muito giras. Por exemplo,ensinam-nos a reciclar, poupar energia, ou produzir menos poluição.
(obrigado Margot)
(obrigado Margot)
04 novembro 2008
Boas ideias
Boas ideias são difíceis de encontrar. Por isso, quando se vê uma, convém dar-lhe o destaque devido. Esta ideia é tão boa, tão boa, que merece um post no Ó faxavor!
Os CTT convidam toda a gente a ser Pai Natal: de uma lista de instituições e respectivas necessidades, cada um escolhe o que quer oferecer para este Natal, vai aos correios e entrega. A distribuição é gratuita e os CTT tratam de tudo, nem precisamos saber a morada da instituição. Sem morada nem código postal, chega ao sítio. Ah, e quem não quiser oferecer coisas, por não saber o que pode oferecer, os donativos também podem ser em dinheiro, nos balcões dos CTT ou nas lojas PayShop.
Sigam o link!
Os CTT convidam toda a gente a ser Pai Natal: de uma lista de instituições e respectivas necessidades, cada um escolhe o que quer oferecer para este Natal, vai aos correios e entrega. A distribuição é gratuita e os CTT tratam de tudo, nem precisamos saber a morada da instituição. Sem morada nem código postal, chega ao sítio. Ah, e quem não quiser oferecer coisas, por não saber o que pode oferecer, os donativos também podem ser em dinheiro, nos balcões dos CTT ou nas lojas PayShop.
Sigam o link!
08 outubro 2008
Google Chrome
O Google fez um browser. Chama-se Google Chrome e por enquanto é beta. Ainda não sei se é uma boa ideia ou não. Vou usá-lo, depois decido.
Uma coisa parece certa: a guerra pela supremacia no fornecimento de serviços Internet entre a Microsoft e a Apple ganhou uma nova frente de batalha.
Página do Google Chrome.
Uma coisa parece certa: a guerra pela supremacia no fornecimento de serviços Internet entre a Microsoft e a Apple ganhou uma nova frente de batalha.
Página do Google Chrome.
06 outubro 2008
Beu-beu-beu
Se acharem que a ideia de acordar de manhã com lambidelas peganhentas na cara é interessante, então talvez vos interesse isto:
"Somos 10 Labradores Retriever puros que queremos arranjar uma casa onde nos encham de miminhos. Nascemos no dia 21 de Agosto e a nossa mãe diz que podemos sair de casa a partir de 15 de Outubro. Somos 7 machos (3 pretos e 4 brancos) e 3 fêmeas (1 preta e 2 brancas) como podem verificar nas fotos em anexo. Se gostarem de cães e quiserem ter o privilégio de ser nossos donos liguem para Isabel - 9XXXXXXXX para combinar os detalhes, se não gostarem ou não puderem ficar conosco, mandem este e-mail para todos os vossos amigos e ajudem-nos a arranjar uma caminha fofinha......"
As fotos referidas são esta e esta.
Nota: o número de telefone foi ocultado para proteger a privacidade da autora da mensagem. Se alguém estiver interessado, mandem-me um mail (link no canto superior direito da página) e eu dou-vos o contacto.
Nota 2: os cães não são para vender, são para dar.
Nota 3: não tenho terraço; se tivesse já não eram 10 cães, eram só 9. Ou talvez 8 (uma fêmea branca e um macho preto, era o ideal para mim). Mas num apartamento não dá mesmo jeito nenhum, os bichos gostam de correr.
Actualização: esta informação já tem um mês de idade. Provavelmente já está obsoleta, por isso não irei responder a mais mails de interessados nos cachorros (que provavelmente já terão sido todos entregues aos novos donos)
"Somos 10 Labradores Retriever puros que queremos arranjar uma casa onde nos encham de miminhos. Nascemos no dia 21 de Agosto e a nossa mãe diz que podemos sair de casa a partir de 15 de Outubro. Somos 7 machos (3 pretos e 4 brancos) e 3 fêmeas (1 preta e 2 brancas) como podem verificar nas fotos em anexo. Se gostarem de cães e quiserem ter o privilégio de ser nossos donos liguem para Isabel - 9XXXXXXXX para combinar os detalhes, se não gostarem ou não puderem ficar conosco, mandem este e-mail para todos os vossos amigos e ajudem-nos a arranjar uma caminha fofinha......"
As fotos referidas são esta e esta.
Nota: o número de telefone foi ocultado para proteger a privacidade da autora da mensagem. Se alguém estiver interessado, mandem-me um mail (link no canto superior direito da página) e eu dou-vos o contacto.
Nota 2: os cães não são para vender, são para dar.
Nota 3: não tenho terraço; se tivesse já não eram 10 cães, eram só 9. Ou talvez 8 (uma fêmea branca e um macho preto, era o ideal para mim). Mas num apartamento não dá mesmo jeito nenhum, os bichos gostam de correr.
Actualização: esta informação já tem um mês de idade. Provavelmente já está obsoleta, por isso não irei responder a mais mails de interessados nos cachorros (que provavelmente já terão sido todos entregues aos novos donos)
30 setembro 2008
Entendam-se, pá! - parte II
Afinal o plano Bush foi aprovado ou não foi aprovado?
Diz o Público, em notícia publicada ontem às 15h19: Nova Iorque reage em forte queda ao plano Bush.
Mas já a notícia publicada ontem às 22h08 dizia: Bolsa de Nova Iorque afunda-se com rejeição do plano Paulson. (Nota: Paulson é o Secretário do Tesouro da administração Bush)
Seria bom que o Público verificasse as suas histórias antes de as publicar, não? Eu andei ontem umas horas (até o André me mandar outra notícia que diz que o plano chumbou; curiosamente uns minutos depois o Queiró escreve um comentário com o endereço da mesma notícia; obviamente, não era no site do Público) a tentar perceber como raio cai a bolsa após a aprovação dos 700 mil milhões de dólares que iriam salvar a banca...
Diz o Público, em notícia publicada ontem às 15h19: Nova Iorque reage em forte queda ao plano Bush.
Mas já a notícia publicada ontem às 22h08 dizia: Bolsa de Nova Iorque afunda-se com rejeição do plano Paulson. (Nota: Paulson é o Secretário do Tesouro da administração Bush)
Seria bom que o Público verificasse as suas histórias antes de as publicar, não? Eu andei ontem umas horas (até o André me mandar outra notícia que diz que o plano chumbou; curiosamente uns minutos depois o Queiró escreve um comentário com o endereço da mesma notícia; obviamente, não era no site do Público) a tentar perceber como raio cai a bolsa após a aprovação dos 700 mil milhões de dólares que iriam salvar a banca...
12 setembro 2008
Assunto do momento: a destruição da Terra (e tudo o que nela vive, incluindo nós, mas acho que isso está implícito)
Como de vez em quando se diz que o LHC tem o potencial para destruir o mundo, nomeadamente pela criação de buracos negros e/ou um novo big bang (na verdade, um big bang é, na prática, um buraco negro, dependendo de onde se olha: do lado "de fora" é um buraco negro, do lado "de dentro" é um big bang), acho que há três links aconselháveis para quem se preocupa com assuntos como "O Fim do Mundo como nós o conhecemos":
Link nº1: Status actual da destruição do mundo por causa do LHC (actualizado instantaneamente) - gosto particularmente da palavra "yet" no título.
Link nº2: Feed video em tempo real do CERN (câmara interior e exterior). Se o vídeo parecer alarmante, não se preocupem. Pelas minhas contas uma expansão rápida demorará pelo menos uns 6 centésimos de segundo a chegar cá (número completamente atirado ao acaso, escusam de o corrigir).
Link nº 3: Caso não acreditem que o LHC tenha de facto o potencial para destruir o mundo, mas estejam preocupados com o assunto, recomendo vivamente a leitura atenta nesta página.
Nota: no link nº 3, apesar de ser questionável a "feasability rating" enunciada, os argumentos fazem sentido e sim, parecem-me capazes de conseguir o efeito desejado. As contas também parecem razoáveis, mas não as verifiquei em detalhe.
Link nº1: Status actual da destruição do mundo por causa do LHC (actualizado instantaneamente) - gosto particularmente da palavra "yet" no título.
Link nº2: Feed video em tempo real do CERN (câmara interior e exterior). Se o vídeo parecer alarmante, não se preocupem. Pelas minhas contas uma expansão rápida demorará pelo menos uns 6 centésimos de segundo a chegar cá (número completamente atirado ao acaso, escusam de o corrigir).
Link nº 3: Caso não acreditem que o LHC tenha de facto o potencial para destruir o mundo, mas estejam preocupados com o assunto, recomendo vivamente a leitura atenta nesta página.
Nota: no link nº 3, apesar de ser questionável a "feasability rating" enunciada, os argumentos fazem sentido e sim, parecem-me capazes de conseguir o efeito desejado. As contas também parecem razoáveis, mas não as verifiquei em detalhe.
10 setembro 2008
Caboum!!!
Naaaaa.... ainda não foi desta! O LHC começou (ainda não se sabe se correu bem ou mal) a funcionar hoje de manhã, mas o Apocalipse ainda vai demorar uns meses. Meanwhile... vivam cada dia como se fosse o último que mais tarde ou mais cedo acertam!
8:30 da manhã
Se já passa das 8:30 da manhã e estás a ler isto, então o Mundo não acabou!
Esta afirmação, assim de repente, pode parecer algo parva. E é, claro. Se o mundo tivesse acabado não estavas aqui a ler isto. Mas...
É que o mundo podia mesmo ter acabado às 8:30. Porque às 8:30 (9:30 CET) vai ter lugar a primeira tentativa de injecção de um feixe de partículas dentro do novo acelerador de partículas do CERN, o LHC.
E porque é que isto é um problema? Bom, porque já se ouviu dizer (por gente que provavelmente pouco percebe de física, mas isso agora não importa) que as energias em jogo no LHC são de tal monta que poderiam dar origem a um buraco negro que rapidamente e de forma descontrolada iria sugar o mundo todo para o seu interior! Baril, não é?
Para saber mais:
Site oficial do LHC First Beam
Artigo (em francês) sobre esta apocalíptica possibilidade
(obrigado Jorge!)
PS: Não, a entrada em funcionamento do LHC não irá provocar o fim do mundo. Temos muito mais que 9h para disfrutar deste planeta.
PPS: o post inicialmente referia as 9:30 da manhã, mas afinal foi uma hora mais cedo. Olha se o mundo tem acabado, han? Tinham-me roubado a última hora...
Esta afirmação, assim de repente, pode parecer algo parva. E é, claro. Se o mundo tivesse acabado não estavas aqui a ler isto. Mas...
É que o mundo podia mesmo ter acabado às 8:30. Porque às 8:30 (9:30 CET) vai ter lugar a primeira tentativa de injecção de um feixe de partículas dentro do novo acelerador de partículas do CERN, o LHC.
E porque é que isto é um problema? Bom, porque já se ouviu dizer (por gente que provavelmente pouco percebe de física, mas isso agora não importa) que as energias em jogo no LHC são de tal monta que poderiam dar origem a um buraco negro que rapidamente e de forma descontrolada iria sugar o mundo todo para o seu interior! Baril, não é?
Para saber mais:
Site oficial do LHC First Beam
Artigo (em francês) sobre esta apocalíptica possibilidade
(obrigado Jorge!)
PS: Não, a entrada em funcionamento do LHC não irá provocar o fim do mundo. Temos muito mais que 9h para disfrutar deste planeta.
PPS: o post inicialmente referia as 9:30 da manhã, mas afinal foi uma hora mais cedo. Olha se o mundo tem acabado, han? Tinham-me roubado a última hora...
09 setembro 2008
JO2008 - Parte XV, Conclusão
Este post conclui uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
(antes de mais, desculpem lá a demora na publicação deste post... estive a semana passada toda fora e julgava que ia ter ligação à net, mas não tive)
A minha análise dos Jogos Olímpicos, da participação portuguesa e de tudo o que a rodeou deixa-me sentimentos mistos: por um lado tivemos uma boa prestação desportiva, talvez um pouco aquém dos resultados de Atenas. Por outro, foi a prestação olímpica mais polémica, carregada de críticas aos atletas e dirigentes do Comité Olímpico Português.
É visível a melhoria nas condições de trabalho e treino dos atletas, o projecto do COP tem pernas para andar e há condições para que o investimento continue, de preferência com valores maiores aos que foram investidos para Pequim 2008.
Após Atenas 2004 tivémos pela primeira vez verbas para o projecto "Esperanças Olímpicas", em que são apoiados atletas cuja participação olímpica se prevê apenas num prazo de 8 anos. Isto faz toda a diferença, as grandes potências desportivas mundiais, além de apoiarem os seus atletas, apoiam os jovens promissores. Mesmo sabendo que muitos nunca irão além de promessas por cumprir. Mas o apoio dado a dezenas de atletas terá os seus frutos no futuro, quando meia dúzia das dezenas acolhidas pelo projecto se tornarem atletas de nível olímpico, tendo beneficiado e muito da evolução que lhes permitiu o investimento do COP.
Os resultados desportivos ficaram aquém das expectativas criadas, muito por culpa do COP que criou essas expectativas, em particular do seu presidente, Vicente Moura. Um país que ganha dezenas de medalhas pode estipular como objectivo atingir uma determinada fasquia. Um país com o palmarés do nosso não pode colocar fasquias ambiciosas, que constituiriam a melhor prestação olímpica de sempre, e depois agir como se de um grande fracasso se tratasse não atingir esse mesmo objectivo. O objectivo mínimo nunca pode ser "o melhor resultado de sempre". Os melhores resultados de sempre surgem como resultado do trabalho à mistura com alguma sorte. Lembremo-nos de Atenas em que a medalha de prata conseguida por Sérgio Paulinho no ciclismo era tudo menos previsível. E a medalha de Obikwelu também não era nada certa, na altura havia um grande domínio norte-americano. Lembrem-se que os EUA conseguiram o pleno na corrida de 200m e só não fizeram o mesmo nos 100m porque Obikwelu fez a corrida de uma vida, batendo o seu record pessoal e igualando o record europeu. Não é algo que se possa prever.
Ter como objectivo 4 medalhas é como o Porto traçar como objectivo mínimo a presença na final da Liga dos Campeões. Não que o não consigam fazer, ainda há meia dúzia de anos ganharam a Champions, mas não foi apenas mérito seu, houve alguma sorte à mistura e alguma incapacidade misturada com azar dos seus adversários. Obviamente que, tendo em conta a estrutura da equipa, o objectivo tem de ser sempre realista. Neste caso, uma passagem à segunda fase e depois logo se vê.
Contudo, e apesar do irrealismo dos objectivos, todo o país se comportou como se já estivesse ganho! Criou-se o já habitual clima de euforia que facilmente contagia os portugueses, com sede de coisas que lhes animem o espírito procurando, talvez, no desporto o escape para os problemas das suas vidas pessoais ou profissionais.
Os resultados até não foram maus, trouxemos duas muito merecidas medalhas, e a generalidade da comitiva portou-se bem tendo em conta as suas expectativas pessoais. Alguns ficaram abaixo, talvez à conta dos nervos misturados com algum azar (Naide Gomes e Gustavo Lima parecem-me ser disso exemplo), algum deslumbramento misturado com arbitragens questionáveis (caso da Telma Monteiro), ou imponderáveis da prova (como aconteceu com Jessica Augusto). Outros houve que excederam as expectativas criadas (caso de Ana Cabecinha nos 20km marcha, as 3 tripulações da canoagem, a equipa de remo ou Daniela Inácio nos 10km de natação em águas abertas). Em balanço final, até nos portámos bem.
Mas as reacções às prestações da equipa cobriram-se de um negativismo impensável à partida. Alguma comunicação social empolou polémicas irrelevantes, os atletas mostraram-se particularmente inábeis na forma de lidar com a comunicação social (aspecto a rever, sff.) e sobretudo o presidente do COP borrou a pintura toda. E fê-lo em 2 momentos (depois de ter dado o mote com a criação de expectavivas mirabolantes): quando anuncia durante a prova que não se recandidata a novo mandato e dá mostras de insatisfação com o empenho dos atletas (com a prova a decorrer deveria ter sabido manter-se calado e não deitar ainda mais achas para a fogueira, em vez de sacudir a água do capote e apontar o dedo ao bode expiatório mais a jeito); e sobretudo quando, 2 dias depois, a medalha de Nelson Évora muda completamente as circunstâncias e afinal já são os melhores resultados de sempre e já está disponível para novo mandato.
Vicente Moura fez-me lembrar um determinado primeiro-ministro português (que o foi apenas por meia dúzia de meses) que anunciou diversas vezes a sua "reforma" da vida pública, seja como membro do Governo ou da Assembleia da República, como dirigente desportivo ou partidário. Quando a coisa não lhe corria de feição vinha com grande dramatismo e lágrima ao canto do olho dizer que se vai embora, magoado; para voltar, uns meses mais tarde, assim que visse uma possibilidade de regresso. Duvido que Vicente Moura siga conscientemente o exemplo deste senhor ex-Primeiro Ministro, mas foi precisamente isso que fez: tornou-se o Santana Lopes do Comité Olímpico Português.
Por estas razões, concordo com a intervenção de Vicente Moura antes da medalha de Nelson Évora: não há condições para um novo mandato. Não concordei quando o anunciou, achei que era demasiado teatral, mas em balanço, as suas intervenções são o aspecto mais digno de crítica em toda a participação olímpica portuguesa. Ouviu-se dizer que Rosa Mota era uma possibilidade avançada pela Federação Portuguesa de Atletismo, mas a própria já veio dizer que nem pensar nisso. É pena, acho que, à semelhança do que acontece noutros Comités Olímpicos Nacionais, um atleta olímpico pode ser um grande dirigente olímpico. Espero que outro candidato surja, que seja uma escolha razoavelmente consensual, e que tenha a força de impedir certos atropelos que ocorreram em Pequim (nomeadamente as viagens de dirigentes federativos em detrimento de treinadores de atletas). Além, claro, de continuar e ampliar o bom projecto de preparação olímpica que começamos a ter.
Em relação à opinião pública (refiro-me à minoria muito barulhenta, acredito que a maioria se quedou silenciosa), são como um mendigo, cheio de fome, mas que desdenha da comida que lhe oferecem. Não são dignos da representação olímpica que têm. Exigem resultados, mas contestam o investimento. E não percebem absolutamente nada dos desportos olímpicos, tirando um, em que não participámos: o futebol. Ao longo de 4 anos este país só tem olhos e ouvidos para o futebol e de 4 em 4 anos aparecem os senhores do costume a exigir prestação de contas.
Lamento muito que os atletas portugueses tenham sido sujeitos às barbaridades ditas por uma cambada de idiotas. Espero que esqueçam os idiotas e que compreendam que em Portugal não há só idiotas. E espero ver-vos, a todos, em Londres 2012 (sobretudo à Naide Gomes que precisa de uma séria desforra, e nós também!)
(antes de mais, desculpem lá a demora na publicação deste post... estive a semana passada toda fora e julgava que ia ter ligação à net, mas não tive)
A minha análise dos Jogos Olímpicos, da participação portuguesa e de tudo o que a rodeou deixa-me sentimentos mistos: por um lado tivemos uma boa prestação desportiva, talvez um pouco aquém dos resultados de Atenas. Por outro, foi a prestação olímpica mais polémica, carregada de críticas aos atletas e dirigentes do Comité Olímpico Português.
É visível a melhoria nas condições de trabalho e treino dos atletas, o projecto do COP tem pernas para andar e há condições para que o investimento continue, de preferência com valores maiores aos que foram investidos para Pequim 2008.
Após Atenas 2004 tivémos pela primeira vez verbas para o projecto "Esperanças Olímpicas", em que são apoiados atletas cuja participação olímpica se prevê apenas num prazo de 8 anos. Isto faz toda a diferença, as grandes potências desportivas mundiais, além de apoiarem os seus atletas, apoiam os jovens promissores. Mesmo sabendo que muitos nunca irão além de promessas por cumprir. Mas o apoio dado a dezenas de atletas terá os seus frutos no futuro, quando meia dúzia das dezenas acolhidas pelo projecto se tornarem atletas de nível olímpico, tendo beneficiado e muito da evolução que lhes permitiu o investimento do COP.
Os resultados desportivos ficaram aquém das expectativas criadas, muito por culpa do COP que criou essas expectativas, em particular do seu presidente, Vicente Moura. Um país que ganha dezenas de medalhas pode estipular como objectivo atingir uma determinada fasquia. Um país com o palmarés do nosso não pode colocar fasquias ambiciosas, que constituiriam a melhor prestação olímpica de sempre, e depois agir como se de um grande fracasso se tratasse não atingir esse mesmo objectivo. O objectivo mínimo nunca pode ser "o melhor resultado de sempre". Os melhores resultados de sempre surgem como resultado do trabalho à mistura com alguma sorte. Lembremo-nos de Atenas em que a medalha de prata conseguida por Sérgio Paulinho no ciclismo era tudo menos previsível. E a medalha de Obikwelu também não era nada certa, na altura havia um grande domínio norte-americano. Lembrem-se que os EUA conseguiram o pleno na corrida de 200m e só não fizeram o mesmo nos 100m porque Obikwelu fez a corrida de uma vida, batendo o seu record pessoal e igualando o record europeu. Não é algo que se possa prever.
Ter como objectivo 4 medalhas é como o Porto traçar como objectivo mínimo a presença na final da Liga dos Campeões. Não que o não consigam fazer, ainda há meia dúzia de anos ganharam a Champions, mas não foi apenas mérito seu, houve alguma sorte à mistura e alguma incapacidade misturada com azar dos seus adversários. Obviamente que, tendo em conta a estrutura da equipa, o objectivo tem de ser sempre realista. Neste caso, uma passagem à segunda fase e depois logo se vê.
Contudo, e apesar do irrealismo dos objectivos, todo o país se comportou como se já estivesse ganho! Criou-se o já habitual clima de euforia que facilmente contagia os portugueses, com sede de coisas que lhes animem o espírito procurando, talvez, no desporto o escape para os problemas das suas vidas pessoais ou profissionais.
Os resultados até não foram maus, trouxemos duas muito merecidas medalhas, e a generalidade da comitiva portou-se bem tendo em conta as suas expectativas pessoais. Alguns ficaram abaixo, talvez à conta dos nervos misturados com algum azar (Naide Gomes e Gustavo Lima parecem-me ser disso exemplo), algum deslumbramento misturado com arbitragens questionáveis (caso da Telma Monteiro), ou imponderáveis da prova (como aconteceu com Jessica Augusto). Outros houve que excederam as expectativas criadas (caso de Ana Cabecinha nos 20km marcha, as 3 tripulações da canoagem, a equipa de remo ou Daniela Inácio nos 10km de natação em águas abertas). Em balanço final, até nos portámos bem.
Mas as reacções às prestações da equipa cobriram-se de um negativismo impensável à partida. Alguma comunicação social empolou polémicas irrelevantes, os atletas mostraram-se particularmente inábeis na forma de lidar com a comunicação social (aspecto a rever, sff.) e sobretudo o presidente do COP borrou a pintura toda. E fê-lo em 2 momentos (depois de ter dado o mote com a criação de expectavivas mirabolantes): quando anuncia durante a prova que não se recandidata a novo mandato e dá mostras de insatisfação com o empenho dos atletas (com a prova a decorrer deveria ter sabido manter-se calado e não deitar ainda mais achas para a fogueira, em vez de sacudir a água do capote e apontar o dedo ao bode expiatório mais a jeito); e sobretudo quando, 2 dias depois, a medalha de Nelson Évora muda completamente as circunstâncias e afinal já são os melhores resultados de sempre e já está disponível para novo mandato.
Vicente Moura fez-me lembrar um determinado primeiro-ministro português (que o foi apenas por meia dúzia de meses) que anunciou diversas vezes a sua "reforma" da vida pública, seja como membro do Governo ou da Assembleia da República, como dirigente desportivo ou partidário. Quando a coisa não lhe corria de feição vinha com grande dramatismo e lágrima ao canto do olho dizer que se vai embora, magoado; para voltar, uns meses mais tarde, assim que visse uma possibilidade de regresso. Duvido que Vicente Moura siga conscientemente o exemplo deste senhor ex-Primeiro Ministro, mas foi precisamente isso que fez: tornou-se o Santana Lopes do Comité Olímpico Português.
Por estas razões, concordo com a intervenção de Vicente Moura antes da medalha de Nelson Évora: não há condições para um novo mandato. Não concordei quando o anunciou, achei que era demasiado teatral, mas em balanço, as suas intervenções são o aspecto mais digno de crítica em toda a participação olímpica portuguesa. Ouviu-se dizer que Rosa Mota era uma possibilidade avançada pela Federação Portuguesa de Atletismo, mas a própria já veio dizer que nem pensar nisso. É pena, acho que, à semelhança do que acontece noutros Comités Olímpicos Nacionais, um atleta olímpico pode ser um grande dirigente olímpico. Espero que outro candidato surja, que seja uma escolha razoavelmente consensual, e que tenha a força de impedir certos atropelos que ocorreram em Pequim (nomeadamente as viagens de dirigentes federativos em detrimento de treinadores de atletas). Além, claro, de continuar e ampliar o bom projecto de preparação olímpica que começamos a ter.
Em relação à opinião pública (refiro-me à minoria muito barulhenta, acredito que a maioria se quedou silenciosa), são como um mendigo, cheio de fome, mas que desdenha da comida que lhe oferecem. Não são dignos da representação olímpica que têm. Exigem resultados, mas contestam o investimento. E não percebem absolutamente nada dos desportos olímpicos, tirando um, em que não participámos: o futebol. Ao longo de 4 anos este país só tem olhos e ouvidos para o futebol e de 4 em 4 anos aparecem os senhores do costume a exigir prestação de contas.
Lamento muito que os atletas portugueses tenham sido sujeitos às barbaridades ditas por uma cambada de idiotas. Espero que esqueçam os idiotas e que compreendam que em Portugal não há só idiotas. E espero ver-vos, a todos, em Londres 2012 (sobretudo à Naide Gomes que precisa de uma séria desforra, e nós também!)
01 setembro 2008
JO2008 - Parte XIV, O dinheiro dos contribuintes
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Se há coisa que a malta gosta de puxar à conversa é o "dinheiro dos contribuintes". De cada vez que o tuga quer reclamar de alguma coisa surge o assunto do dinheiro público à baila.
Na Expo 1998 houve muita gente a queixar-se do dinheiro público e o mesmo se passou com o Euro-2004. Questiona-se o gasto de dinheiro público com o TGV, com a OTA. E este ano, surgiu uma novidade: questiona-se o dinheiro púlico gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos.
Mas... quanto foi o dinheiro dos contribuintes gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim? A resposta é: 14 milhões de euros. Nem mais, nem menos. Foi esta a verba atribuída pelo estado ao Comité Olímpico Português, para preparação da participação portuguesa: subsídios a federações, despesas com o programa, criação de infra-estruturas, bolsas a atletas, bolsas a treinadores, etc.
Só como curiosidade, a RTP investiu (ou gastou, depende da perspectiva) 22 milhões de euros para adquirir os direitos de transmissão dos jogos da I Liga de Futebol em canal aberto (a Sport TV continua a deter os direitos para a competição mas ao abrigo do serviço público 1 jogo semana é transmitido em canal aberto). Não ponho em causa o investimento (ou despesa, depende da perspectiva) da RTP nas transmissões futebolísticas, mas não gosto que haja dois pesos e duas medidas.
Do orçamento do COP para a preparação dos Jogos Olímpicos de Pequim quanto é atribuído aos atletas? Com que critérios? Como são avaliadas as suas prestações?
Bom, aqui vêm os números, cada um avalie por si: Um atleta é integrado no programa olímpico ao atingir resultados de relevo. Estes podem ser resultados em provas do programa olímpico, Campeonato do Mundo ou Jogos Olímpicos. No caso de Campeonatos da Europa compete à Federação respectiva a criação de critérios adequados.
E os critérios são:
- Um atleta medalhado (3 primeiros lugares) é integrado no nível I;
- um atleta finalista (8 primeiros classificados) é integrado no nível II;
- um atleta semi-finalissta (10, 12 ou 16 primeiros classificados) é integrado no nível III;
- um atleta pode ser ainda integrado no nível IV, dependendo de critérios específicos de um determinado evento ou modalidade (por exemplo, atingindo os mínimos de qualificação).
Aos atletas do programa olímpico são atribuidas bolsas, cujo objectivo é financiar a sua actividade. Estas bolsas são de:
Nível I: 1250 Euros/mês
Nível II: 1000 Euros/mês
Nível III: 750 Euros/mês
Nível IV: 500 Euros/mês.
Semestralmente, o desempenho do atleta é avaliado e de acordo com os resultados obtidos será atribuido um nível para o semestre seguinte. Dependendo dos resultados há períodos de permanência mínima no projecto. Por exemplo, um finalista olímpico tem garantida a sua continuidade durante todo o ciclo olímpico seguinte; um semi-finalista tem a sua continuidade assegurada durante 2 anos. Mas... e alguém que fique aquém das expectativas, por exemplo Naide Gomes? Pode ler-se no contrato-programa que "Quando um atleta for excluído do projecto por incumprimento dos objectivos desportivos, beneficia de uma continuidade do apoio de 50% da bolsa de nível 3, por um período máximo de três meses". Ou seja, como Naide ficou claramente aquém das expectativas, quer dizer que vai receber 375 euros durante 3 meses. Depois, ou bem que tem resultados de topo para mostrar ou deixa de receber bolsa.
Além das bolsas para a preparação olímpica, há prémios para os atletas que atingem medalhas. Segundo ouvi na comunicação social, Nelson Évora irá receber 30 mil euros do COP como prémio pela medalha de ouro.
Para Londres 2012 o COP propôs ao governo um aumento de 14 para 17 milhões de euros (aumento de 20%) e o aumento das bolsas de preparação olímpica para, respectivamente, 1500, 1200, 900 e 600 euros/mês. Já é qualquer coisa, mas acho que continua a ser um projecto modesto e por isso apenas pode almejar a resultados igualmente modestos.
Mesmo sendo realidades totalmente distintas, gostaria de lembrar o caso do futebol: no mundial de 2006 os jogadores da selecção portuguesa receberam, de prémio de participação, 50 mil euros cada um. Isto é independente dos resultados. Não sei qual o montante dos prémios em caso de vitória no mundial (espero bem que sejam avultados!) nem qual o prémio efectivamente pago pela presença nas meias-finais. No Euro-2008 foi noticiado que o prémio em caso de vitória seria de 300 mil euros a cada atleta. Não sei (porque não foi anunciado) qual o montante do prémio de presença pago pela FPF. Não quero contestar os valores pagos ao futebol, acho que é dinheiro bem empregue. Além disso, é dinheiro da FPF que faz com ele o que bem entende. Mas gostaria de apontar o paradoxo de o prémio a ser pago aos futebolistas da selecção nacional em caso de vitória no Euro-2008 chegar para cobrir METADE do programa olímpico. Ou seja, seria suficiente para pagar a totalidade das despesas do COP (bolsas, infra-estruturas, viagens e ajudas de custo, formação, despesas administrativas) durante 2 anos!!! Das duas uma: ou a FPF paga muito ou o COP paga pouco. Eu voto na segunda.
E como acho que não são as verbas que a FPF disponibiliza que devem ser contestadas, fui procurar informações sobre outras selecções olímpicas. Encontrei dados referentes a 3: a preparação olímpica espanhola para os jogos de Barcelona 1992, a preparação olímpica inglesa para Pequim e a preparação olímpica Chinesa para Pequim.
Penso que o caso espanhol deve servir-nos de modelo e o caso inglês deverá ser um objectivo. Não tanto pelos números, mas sobretudo pela forma como conseguem obter os financiamentos necessários.
O caso espanhol
Espanha foi anfitriã dos jogos de 1992 e investiu seriamente na preparação dos seus atletas. O objectivo era obter a melhor participação de sempre e deixar as bases para uma melhoria significativa dos resultados olímpicos para o futuro. O objectivo foi, a todos os níveis, conseguido. De entre os vários números que podemos consultar no documento, saliento os valores obtidos através de patrocinadores (7 mil milhões de pesetas, 42 milhões de euros), e os valores das bolsas aos atletas olímpicos, entre 840.000 e 7.800.000 pesetas anuais (entre 5 mil e 47 mil euros anuais), sendo o valor médio de 3 milhões de pesetas por atleta (18 mil euros, ou seja, 1500 euros/mês). E isto era em 1992, há 16 anos, numa altura em que se faziam campeões olímpicos por muito menos que agora!
O caso inglês
Em antecipação à organização dos jogos de 2012 a Inglaterra aumentou substancialmente o seu investimento. Dos 59 milhões de libras (cerca de 70 milhões de euros) para Sidney e 70 milhões para Atenas (90 milhões de euros) passou para 235 milhões para Pequim (cerca de 300 milhões de euros). (Nota: usei como taxa de conversão 1.3; o euro neste momento está valorizado em relação à libra, mas é um fenómeno relativamente recente, sendo 1.3 um valor mais justo para fazer a comparação a longo prazo; a libra chegou a valer 1.6 no início de circulação do Euro). Como resultado, obtiveram em Pequim 47 medalhas (19 de ouro). O ratio investimentos/medalhas para Portugal e Grã-Bretanha é mais ou menos id~entico (cerca de 7 milhões de euros por medalha conseguida). Ou seja, os nossos resultados estão perfeitamente enquadrados dentro do investimento realizado.
Note-se no caso inglês que, tal como nós, possuem vários níveis de apoio aos atletas. Os ingleses usam apenas 3 níveis: podium, development e talen. Podium é o nível onde são integrados os atletas com boas perspectivas de obtenção de medalhas olímpicas; development é a segunda linha de investimentos; talent é o equivalente ao nosso programa de Esperanças Olímpicas (que é uma novidade por cá: desde 2005 decorre o programa Esperanças Londres 2012 e vai arrancar agora o programa Esperanças 2016). A diferença está nos números: A grã-Bretanha tem mais de 1500 atletas nos níveis Podium e Development. Sendo que apenas 300 e tal foram integrados na equipa olímpica. Ou seja, a sua "pool" de atletas é grande, permitindo à chegada aos jogos seleccionar apenas os que estão em melhor forma. Em Portugal, por outro lado, praticamente todos os atletas no programa olímpico são seleccionáveis, já que não temos mais por onde escolher. Na maior parte das modalidades ou eventos temos apenas 1 atleta de nível internacional, capaz de fazer mínimos.
O caso chinês
O caso chinês, obviamente, não serve de exemplo para ninguém. A partir de 2000 o investimento anual cifrou-se em mais de 700 milhões de dólares anuais! O que dá 2.800 milhões de dólares por cada ciclo olímpico!!! São números avassaladores, que só podem ser conseguidos por governos ditaturiais com uma base de contribuintes na casa do bilião. Claro que alguma coisa fica para trás, e num país ainda muito pobre (para a esmagadora maioria da população), gasta-se mais que em qualquer outro no programa olímpico. Mas serve de lição: sem ovos (guito!) não se fazem omeletes (campeões olímpicos). E se queremos muitos campeões, temos de gastar muito, mas mesmo muito dinheiro.
Voltando ao nosso caso
O investimento português é razoável e estão a criar-se condições para que os resultados apareçam no longo prazo. Infra-estruturas, centros de alto rendimento, apoio aos clubes, às federações. Mas demora tempo. E aos 4 milhões de euros por ano vai demorar muito até conseguirmos sequer apanhar países como a Holanda, por exemplo (a Holanda tem cerca de metade da nossa população e conseguiu 16 medalhas, sendo 7 de ouro). Espero que com estes números a nossa participação, bem como os objectivos traçados ao início, possam ser devidamente analisados, em condições justas.
E que, de futuro, se pense mais nas modalidades desportivas além-futebol. Ou então, que nos deixemos de preocupar com os resultados dessas modalidades e assumamos por uma vez que apenas o futebol interessa. Durante 4 anos ninguém ouve falar da preparação olímpica e a cada 4 anos vem toda a gente pedir contas do que se fez com o dinheiro. Como se fosse uma grande fortuna. Como se ser atleta olímpico em Portugal fosse o caminho mais fácil para uma vida financeiramente desafogada.
Referências:
- Página do COP sobre o programa Pequim 2008 (ao fundo da página têm os links relevantes)
- A participação do CO Espanhol no sucesso de 1992 (PDF)
- UK Sport a entidade responsável pela preparação olímpica britânica
- Artigo de opinião sobre o investimento chinês
Se há coisa que a malta gosta de puxar à conversa é o "dinheiro dos contribuintes". De cada vez que o tuga quer reclamar de alguma coisa surge o assunto do dinheiro público à baila.
Na Expo 1998 houve muita gente a queixar-se do dinheiro público e o mesmo se passou com o Euro-2004. Questiona-se o gasto de dinheiro público com o TGV, com a OTA. E este ano, surgiu uma novidade: questiona-se o dinheiro púlico gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos.
Mas... quanto foi o dinheiro dos contribuintes gasto com a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim? A resposta é: 14 milhões de euros. Nem mais, nem menos. Foi esta a verba atribuída pelo estado ao Comité Olímpico Português, para preparação da participação portuguesa: subsídios a federações, despesas com o programa, criação de infra-estruturas, bolsas a atletas, bolsas a treinadores, etc.
Só como curiosidade, a RTP investiu (ou gastou, depende da perspectiva) 22 milhões de euros para adquirir os direitos de transmissão dos jogos da I Liga de Futebol em canal aberto (a Sport TV continua a deter os direitos para a competição mas ao abrigo do serviço público 1 jogo semana é transmitido em canal aberto). Não ponho em causa o investimento (ou despesa, depende da perspectiva) da RTP nas transmissões futebolísticas, mas não gosto que haja dois pesos e duas medidas.
Do orçamento do COP para a preparação dos Jogos Olímpicos de Pequim quanto é atribuído aos atletas? Com que critérios? Como são avaliadas as suas prestações?
Bom, aqui vêm os números, cada um avalie por si: Um atleta é integrado no programa olímpico ao atingir resultados de relevo. Estes podem ser resultados em provas do programa olímpico, Campeonato do Mundo ou Jogos Olímpicos. No caso de Campeonatos da Europa compete à Federação respectiva a criação de critérios adequados.
E os critérios são:
- Um atleta medalhado (3 primeiros lugares) é integrado no nível I;
- um atleta finalista (8 primeiros classificados) é integrado no nível II;
- um atleta semi-finalissta (10, 12 ou 16 primeiros classificados) é integrado no nível III;
- um atleta pode ser ainda integrado no nível IV, dependendo de critérios específicos de um determinado evento ou modalidade (por exemplo, atingindo os mínimos de qualificação).
Aos atletas do programa olímpico são atribuidas bolsas, cujo objectivo é financiar a sua actividade. Estas bolsas são de:
Nível I: 1250 Euros/mês
Nível II: 1000 Euros/mês
Nível III: 750 Euros/mês
Nível IV: 500 Euros/mês.
Semestralmente, o desempenho do atleta é avaliado e de acordo com os resultados obtidos será atribuido um nível para o semestre seguinte. Dependendo dos resultados há períodos de permanência mínima no projecto. Por exemplo, um finalista olímpico tem garantida a sua continuidade durante todo o ciclo olímpico seguinte; um semi-finalista tem a sua continuidade assegurada durante 2 anos. Mas... e alguém que fique aquém das expectativas, por exemplo Naide Gomes? Pode ler-se no contrato-programa que "Quando um atleta for excluído do projecto por incumprimento dos objectivos desportivos, beneficia de uma continuidade do apoio de 50% da bolsa de nível 3, por um período máximo de três meses". Ou seja, como Naide ficou claramente aquém das expectativas, quer dizer que vai receber 375 euros durante 3 meses. Depois, ou bem que tem resultados de topo para mostrar ou deixa de receber bolsa.
Além das bolsas para a preparação olímpica, há prémios para os atletas que atingem medalhas. Segundo ouvi na comunicação social, Nelson Évora irá receber 30 mil euros do COP como prémio pela medalha de ouro.
Para Londres 2012 o COP propôs ao governo um aumento de 14 para 17 milhões de euros (aumento de 20%) e o aumento das bolsas de preparação olímpica para, respectivamente, 1500, 1200, 900 e 600 euros/mês. Já é qualquer coisa, mas acho que continua a ser um projecto modesto e por isso apenas pode almejar a resultados igualmente modestos.
Mesmo sendo realidades totalmente distintas, gostaria de lembrar o caso do futebol: no mundial de 2006 os jogadores da selecção portuguesa receberam, de prémio de participação, 50 mil euros cada um. Isto é independente dos resultados. Não sei qual o montante dos prémios em caso de vitória no mundial (espero bem que sejam avultados!) nem qual o prémio efectivamente pago pela presença nas meias-finais. No Euro-2008 foi noticiado que o prémio em caso de vitória seria de 300 mil euros a cada atleta. Não sei (porque não foi anunciado) qual o montante do prémio de presença pago pela FPF. Não quero contestar os valores pagos ao futebol, acho que é dinheiro bem empregue. Além disso, é dinheiro da FPF que faz com ele o que bem entende. Mas gostaria de apontar o paradoxo de o prémio a ser pago aos futebolistas da selecção nacional em caso de vitória no Euro-2008 chegar para cobrir METADE do programa olímpico. Ou seja, seria suficiente para pagar a totalidade das despesas do COP (bolsas, infra-estruturas, viagens e ajudas de custo, formação, despesas administrativas) durante 2 anos!!! Das duas uma: ou a FPF paga muito ou o COP paga pouco. Eu voto na segunda.
E como acho que não são as verbas que a FPF disponibiliza que devem ser contestadas, fui procurar informações sobre outras selecções olímpicas. Encontrei dados referentes a 3: a preparação olímpica espanhola para os jogos de Barcelona 1992, a preparação olímpica inglesa para Pequim e a preparação olímpica Chinesa para Pequim.
Penso que o caso espanhol deve servir-nos de modelo e o caso inglês deverá ser um objectivo. Não tanto pelos números, mas sobretudo pela forma como conseguem obter os financiamentos necessários.
O caso espanhol
Espanha foi anfitriã dos jogos de 1992 e investiu seriamente na preparação dos seus atletas. O objectivo era obter a melhor participação de sempre e deixar as bases para uma melhoria significativa dos resultados olímpicos para o futuro. O objectivo foi, a todos os níveis, conseguido. De entre os vários números que podemos consultar no documento, saliento os valores obtidos através de patrocinadores (7 mil milhões de pesetas, 42 milhões de euros), e os valores das bolsas aos atletas olímpicos, entre 840.000 e 7.800.000 pesetas anuais (entre 5 mil e 47 mil euros anuais), sendo o valor médio de 3 milhões de pesetas por atleta (18 mil euros, ou seja, 1500 euros/mês). E isto era em 1992, há 16 anos, numa altura em que se faziam campeões olímpicos por muito menos que agora!
O caso inglês
Em antecipação à organização dos jogos de 2012 a Inglaterra aumentou substancialmente o seu investimento. Dos 59 milhões de libras (cerca de 70 milhões de euros) para Sidney e 70 milhões para Atenas (90 milhões de euros) passou para 235 milhões para Pequim (cerca de 300 milhões de euros). (Nota: usei como taxa de conversão 1.3; o euro neste momento está valorizado em relação à libra, mas é um fenómeno relativamente recente, sendo 1.3 um valor mais justo para fazer a comparação a longo prazo; a libra chegou a valer 1.6 no início de circulação do Euro). Como resultado, obtiveram em Pequim 47 medalhas (19 de ouro). O ratio investimentos/medalhas para Portugal e Grã-Bretanha é mais ou menos id~entico (cerca de 7 milhões de euros por medalha conseguida). Ou seja, os nossos resultados estão perfeitamente enquadrados dentro do investimento realizado.
Note-se no caso inglês que, tal como nós, possuem vários níveis de apoio aos atletas. Os ingleses usam apenas 3 níveis: podium, development e talen. Podium é o nível onde são integrados os atletas com boas perspectivas de obtenção de medalhas olímpicas; development é a segunda linha de investimentos; talent é o equivalente ao nosso programa de Esperanças Olímpicas (que é uma novidade por cá: desde 2005 decorre o programa Esperanças Londres 2012 e vai arrancar agora o programa Esperanças 2016). A diferença está nos números: A grã-Bretanha tem mais de 1500 atletas nos níveis Podium e Development. Sendo que apenas 300 e tal foram integrados na equipa olímpica. Ou seja, a sua "pool" de atletas é grande, permitindo à chegada aos jogos seleccionar apenas os que estão em melhor forma. Em Portugal, por outro lado, praticamente todos os atletas no programa olímpico são seleccionáveis, já que não temos mais por onde escolher. Na maior parte das modalidades ou eventos temos apenas 1 atleta de nível internacional, capaz de fazer mínimos.
O caso chinês
O caso chinês, obviamente, não serve de exemplo para ninguém. A partir de 2000 o investimento anual cifrou-se em mais de 700 milhões de dólares anuais! O que dá 2.800 milhões de dólares por cada ciclo olímpico!!! São números avassaladores, que só podem ser conseguidos por governos ditaturiais com uma base de contribuintes na casa do bilião. Claro que alguma coisa fica para trás, e num país ainda muito pobre (para a esmagadora maioria da população), gasta-se mais que em qualquer outro no programa olímpico. Mas serve de lição: sem ovos (guito!) não se fazem omeletes (campeões olímpicos). E se queremos muitos campeões, temos de gastar muito, mas mesmo muito dinheiro.
Voltando ao nosso caso
O investimento português é razoável e estão a criar-se condições para que os resultados apareçam no longo prazo. Infra-estruturas, centros de alto rendimento, apoio aos clubes, às federações. Mas demora tempo. E aos 4 milhões de euros por ano vai demorar muito até conseguirmos sequer apanhar países como a Holanda, por exemplo (a Holanda tem cerca de metade da nossa população e conseguiu 16 medalhas, sendo 7 de ouro). Espero que com estes números a nossa participação, bem como os objectivos traçados ao início, possam ser devidamente analisados, em condições justas.
E que, de futuro, se pense mais nas modalidades desportivas além-futebol. Ou então, que nos deixemos de preocupar com os resultados dessas modalidades e assumamos por uma vez que apenas o futebol interessa. Durante 4 anos ninguém ouve falar da preparação olímpica e a cada 4 anos vem toda a gente pedir contas do que se fez com o dinheiro. Como se fosse uma grande fortuna. Como se ser atleta olímpico em Portugal fosse o caminho mais fácil para uma vida financeiramente desafogada.
Referências:
- Página do COP sobre o programa Pequim 2008 (ao fundo da página têm os links relevantes)
- A participação do CO Espanhol no sucesso de 1992 (PDF)
- UK Sport a entidade responsável pela preparação olímpica britânica
- Artigo de opinião sobre o investimento chinês
31 agosto 2008
JO2008 - Parte XIII, Uma de ouro, uma de prata
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Até à final do triplo salto não faltava quem anunciasse na comunicação social a calamidade eminente: vamos sair de Pequim só com uma medalha, um resultado vergonhoso (bem pior foi o de Barcelona em 1992, em que saímos com zero medalhas, mas nestas alturas a comunicação social tem o condão de se esquecer do que não lhes dá jeito).
Já se previa a fanfarra em torno de Vanessa Fernandes, a única que trouxe dignidade às cores nacionais.
Até o presidente do COP veio dizer que não iria candidatar-se a novo mandato, porque falhou os objectivos. Tinham acabado as provas de Naide Gomes e Gustavo Lima, restava 1 possibilidade de medalha.
2 dias depois, salta Nelson Évora (salta, não, que digo eu? VOA!) uns espectaculares 17,67m e ganha a medalha de ouro.
E de repente... passamos de uma prestação "vergonhosa", "decepcionante", "fraca" para "a melhor prestação de sempre". E isto segundo quem? Segundo os critérios do COI, que primeiro ordena por medalhas de ouro, depois por medalhas de prata e depois por medalhas de bronze. Critério que serve muito bem os propósitos: salvar a face! De toda a gente: salvar a face do secretário de estado do desporto, do COP, da missão portuguesa, da comunicação social. A melhor prestação de sempre só o é porque dá jeito.
A "melhor prestação de sempre" conseguiu sê-lo por 6 cm. 6 cm a menos e Nelson Évora ficaria com a prata. 9 cm a menos e ficaria com bronze, 16 cm a menos ficaria fora do pódio.
Como é possível que a "melhor prestação de sempre" dependa de tão pouco? Como é possível que as condições que o presidente do COP não tinha, apareceram de repente, fruto de apenas 16cm? Das duas, uma: ou o COP fez bem o seu trabalho e providenciou aos atletas as melhores condições possíveis, ou não! Se o fez, se o trabalho está bem feito, se as bases estão lançadas, então a continuidade do projecto não pode depender do número de medalhas. Até poderia, se fôssemos um país com a tradição de ganhar medalhas às dezenas, mas quando o objectivo são 4 estamos demasiado à mercê de imponderáveis para hipotecar o projecto numa aposta frágil. Se não fez, se as condições não foram as melhores, se os atletas não tiveram tudo aquilo de que necessitavam, então não é uma medalha de ouro, por mais saborosa, desejada ou merecida, que vai disfarçar o problema.
Vicente Moura fez mal ao anunciar que não se recandidatava. Fez mal porque o anunciou durante os jogos. Deveria ter feito o anúncio, se era essa a sua intenção, no fim dos jogos quando fosse altura de apresentar um balanço. Mas fez muito pior em dar o dito por não dito dois dias depois. Feita a asneira, assume-se a asneira. Sob pena de se perder toda a credibilidade. Até ao seu anúncio de renúncia eu apoiava a liderança de Vicente Moura. Agora acho que é altura de mudar de chefia. Esta perdeu a face e dificilmente a recupera. Junto de atletas, treinadores, federações e público em geral.
Finalmente, como é possível que uma equipa tão contestada, tão criticada, tão atacada por todos os lados, seja agora levada aos píncaros apenas porque em vez de 1 medalha trouxeram duas? Sinceramente, não concordo que esta prestação tenha sido a melhor de sempre. Ou pelo menos não tenho assim tanta certeza. Em 2004 trouxémos 3 medalhas e uma batelada de diplomas olímpicos. Gostei muito dos resultados de Atenas. Não tanto dos de Pequim. Os melhores em Pequim foram melhores que os melhores em Atenas, mas ficámos aquém do desejado nalgumas modalidades e nalguns eventos.
Classificar esta prestação como a melhor de sempre é injusto. É injusto para com os atletas que esperavam ter feito melhor do que fizeram. Dizer que esta prestação foi a melhor de sempre é dizer a Naide Gomes, Gustavo Lima e Telma Monteiro, para citar apenas os 3 casos mais mediáticos, que os seus maus resultados (maus, tendo em conta as expectativas) não nos incomodam. Não estamos nada aborrecidos com o pódio falhado por 1 ponto de Gustavo Lima, com a eliminação surpresa de Naide Gomes ou com a derrota inesperada de Telma Monteiro. Pois eu estou chateado! Estava a contar com melhor. Por isso, não acho que tenham sido os melhores Jogos Olímpicos de sempre. E quero que estes atletas vão a Londres para a desforra dos resultados de Pequim!!! Merecem eles e merecem aqueles que os apoiam.
Próximos episódios:
- O dinheiro dos contribuintes
- Conclusão
Até à final do triplo salto não faltava quem anunciasse na comunicação social a calamidade eminente: vamos sair de Pequim só com uma medalha, um resultado vergonhoso (bem pior foi o de Barcelona em 1992, em que saímos com zero medalhas, mas nestas alturas a comunicação social tem o condão de se esquecer do que não lhes dá jeito).
Já se previa a fanfarra em torno de Vanessa Fernandes, a única que trouxe dignidade às cores nacionais.
Até o presidente do COP veio dizer que não iria candidatar-se a novo mandato, porque falhou os objectivos. Tinham acabado as provas de Naide Gomes e Gustavo Lima, restava 1 possibilidade de medalha.
2 dias depois, salta Nelson Évora (salta, não, que digo eu? VOA!) uns espectaculares 17,67m e ganha a medalha de ouro.
E de repente... passamos de uma prestação "vergonhosa", "decepcionante", "fraca" para "a melhor prestação de sempre". E isto segundo quem? Segundo os critérios do COI, que primeiro ordena por medalhas de ouro, depois por medalhas de prata e depois por medalhas de bronze. Critério que serve muito bem os propósitos: salvar a face! De toda a gente: salvar a face do secretário de estado do desporto, do COP, da missão portuguesa, da comunicação social. A melhor prestação de sempre só o é porque dá jeito.
A "melhor prestação de sempre" conseguiu sê-lo por 6 cm. 6 cm a menos e Nelson Évora ficaria com a prata. 9 cm a menos e ficaria com bronze, 16 cm a menos ficaria fora do pódio.
Como é possível que a "melhor prestação de sempre" dependa de tão pouco? Como é possível que as condições que o presidente do COP não tinha, apareceram de repente, fruto de apenas 16cm? Das duas, uma: ou o COP fez bem o seu trabalho e providenciou aos atletas as melhores condições possíveis, ou não! Se o fez, se o trabalho está bem feito, se as bases estão lançadas, então a continuidade do projecto não pode depender do número de medalhas. Até poderia, se fôssemos um país com a tradição de ganhar medalhas às dezenas, mas quando o objectivo são 4 estamos demasiado à mercê de imponderáveis para hipotecar o projecto numa aposta frágil. Se não fez, se as condições não foram as melhores, se os atletas não tiveram tudo aquilo de que necessitavam, então não é uma medalha de ouro, por mais saborosa, desejada ou merecida, que vai disfarçar o problema.
Vicente Moura fez mal ao anunciar que não se recandidatava. Fez mal porque o anunciou durante os jogos. Deveria ter feito o anúncio, se era essa a sua intenção, no fim dos jogos quando fosse altura de apresentar um balanço. Mas fez muito pior em dar o dito por não dito dois dias depois. Feita a asneira, assume-se a asneira. Sob pena de se perder toda a credibilidade. Até ao seu anúncio de renúncia eu apoiava a liderança de Vicente Moura. Agora acho que é altura de mudar de chefia. Esta perdeu a face e dificilmente a recupera. Junto de atletas, treinadores, federações e público em geral.
Finalmente, como é possível que uma equipa tão contestada, tão criticada, tão atacada por todos os lados, seja agora levada aos píncaros apenas porque em vez de 1 medalha trouxeram duas? Sinceramente, não concordo que esta prestação tenha sido a melhor de sempre. Ou pelo menos não tenho assim tanta certeza. Em 2004 trouxémos 3 medalhas e uma batelada de diplomas olímpicos. Gostei muito dos resultados de Atenas. Não tanto dos de Pequim. Os melhores em Pequim foram melhores que os melhores em Atenas, mas ficámos aquém do desejado nalgumas modalidades e nalguns eventos.
Classificar esta prestação como a melhor de sempre é injusto. É injusto para com os atletas que esperavam ter feito melhor do que fizeram. Dizer que esta prestação foi a melhor de sempre é dizer a Naide Gomes, Gustavo Lima e Telma Monteiro, para citar apenas os 3 casos mais mediáticos, que os seus maus resultados (maus, tendo em conta as expectativas) não nos incomodam. Não estamos nada aborrecidos com o pódio falhado por 1 ponto de Gustavo Lima, com a eliminação surpresa de Naide Gomes ou com a derrota inesperada de Telma Monteiro. Pois eu estou chateado! Estava a contar com melhor. Por isso, não acho que tenham sido os melhores Jogos Olímpicos de sempre. E quero que estes atletas vão a Londres para a desforra dos resultados de Pequim!!! Merecem eles e merecem aqueles que os apoiam.
Próximos episódios:
- O dinheiro dos contribuintes
- Conclusão
JO2008 - Parte XII, Portugueses e Estrangeiros
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Há quatro anos Francis Obikwelu, então atleta português recém-naturalizado, ganhou uma medalha de prata nos 100m nos Jogos Olímpicos de Atenas. A prova foi transmitida em directo no Telejornal e assim que terminou, a grande manchete era "Primeira medalha olímpica portuguesa na velocidade".
Há 4 anos ninguém tinha dúvidas que Obikwelu era português, que a sua medalha era portuguesa. Contudo...
Este ano foi diferente. Foi com a eliminação de Francis Obikwelu nos 100m e consequente abandono da carreira internacional, anunciado minutos depois, que me divorciei completamente da comunicação social portuguesa. Foi nesse momento que achei que a coisa tinha, pura e simplesmente, passado das marcas. E depois só piorou.
1. Após a eliminação, a pivot do programa Desporto 2, transmitido na RTP2 paga com o dinheiro dos contribuintes portugueses, conseguiu a proeza de se referir a Francis Obikwelu como "o atleta nigeriano"; na frase seguinte, Obikwelu passou a "luso-nigeriano" e na frase seguinte já era "atleta português de origem nigeriana". Não, isto não se admite! Nenhum órgão de comunicação social pode, por um lado, dizer que são "vitórias nossas" e no momento seguinte referir-se às "derrotas deles". Muito menos um órgão de comunicação social do estado, pago com dinheiros públicos e obrigado a prestar serviço público.
2. Poucos dias mais tarde, Naide Gomes que até ao momento era uma "atleta portuguesa" foi eliminada na qualificação do salto em comprimento. Em todas as notícias que li, nomeadamente no site do Público, a sua origem "são tomense" foi referida. Em TODAS as notícias, ela foi "atleta portuguesa de origem são tomense".
3. Gustavo Lima, que ao longo de toda a competição da classe Laser foi o "velejador português" passou subitamente, ao perder o pódio por 1 ponto, a ser "o velejador português nascido no Rio de Janeiro". No site do Público.
4. Talvez em virtude da onda de protestos que estes comentários depreciativos acerca da naturalidade dos atletas desencadearam, Nelson Évora passou a ser, em TODAS as notícias, referido como "atleta português, nascido na Costa do Marfim e filho de cabo-verdianos". Assim os órgãos de comunicação social defendem-se das acusações de parcialidade, referindo a naturalidade estrangeira de um atleta apenas quando perde.
Foi vergonhoso. É uma vergonha ver os órgãos de comunicação social a referir a naturalidade dos atletas, mas apenas de alguns. Porque ninguém disse, em nenhuma das notícias, qual a naturalidade de Vanessa Fernandes (é de Perosinho, Vila Nova de Gaia). O tema só surge quando se referem à sua família, que ainda lá mora, à forma como os seus conterrâneos vêem as provas, à festa que ocorreu em sua homenagem. A naturalidade de Vanessa Fernandes não é relevante quando se dá uma notícia sobre a sua participação numa prova, tenha corrido bem ou mal. Porque há-de ser relevante a naturalidade de Francis Obikwelu, Naide Gomes, Nelson Évora ou Gustavo Lima? A naturalidade de um atleta nascido em Braga, Castelo Branco, Almada, Coimbra ou Funchal é tão relevante quando a de um atleta nascido na Costa do Marfim, Nigéria, Guiné Bissau, Brasil, França ou São Tomé e Príncipe.
Os órgãos de comunicação social perceberam bem que meteram a pata na poça pela quantidade de comentários a esse respeito. E por isso salvaram a face referindo a origem Costa-marfinense de Nelson Évora. E podem dizer descansados que "não é só quando perdem, fizémos isso com todos!". O único problema é que... esqueceram-se de alguns: Jessica Augusto nasceu em França e Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau. Esqueceram-se de referir a naturalidade destes dois quando noticiaram as respectivas eliminações. Para a próxima, tomem nota das naturalidades dos atletas todos, podem vir a ser úteis.
E para terminar, uma pequena nota: considero meu compatriota todo aquele que assim tenha nascido e não manifeste vontade de deixar de o ser; e todo aquele que não o sendo de nascença manifeste a vontade de passar a sê-lo e assim concorde o Estado Português. A partir do momento em que o Estado Português reconhece alguém como meu compatriota, então, sê bem-vindo! Pelo que vi há tanto português "de gema" com vergonha de o ser que abraço qualquer estrangeiro que, tendo melhores opções, opta pela nacionalidade portuguesa. Não me importa onde nasceram. Isto também vale para futebolistas como Pepe, Deco (ambos brasileiros de origem), Bosingwa ou Makukula (ambos da República Democrática do Congo, ex-Zaire).
Notas:
- Francis Obikwelu nasceu na Nigéria, naturalizado português a partir de Outubro de 2001; radicou-se em Portugal em 1994, com 16 anos de idade.
- Nelson Évora nasceu na Costa do Marfim e é de ascendência cabo-verdiana; vive em Portugal desde os 5 anos de idade, tendo-se naturalizado português em 2002 (com 18 anos)
- Naide Gomes nasceu em São Tomé e Príncipe e naturalizou-se portuguesa em 2001. Vive em Portugal desde os 11 anos de idade.
- Gustavo Lima nasceu no Rio de Janeiro. Pelo que percebi, é português de nascença, tendo a família regressado a Portugal quando ainda era criança.
- Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau e reside em Portugal desde os 10 anos de idade. Naturalizou-se português aos 23 anos (em 2000 ou 2001, não conseguir determinar a data precisa).
- Jessica Augusto nasceu em França, mas pelo que pude determinar, desde sempre foi portuguesa. Não conseguir perceber desde quando reside em Portugal.
- Nelson Sousa (eu) é português desde que nasceu, em 1977, em Leiria. Viveu toda a vida em Portugal (Leiria e Lisboa), excepto durante 1 ano em que morou em Estrasburgo (França). E não se sente mais português que nenhum dos referidos acima.
Nota adicional: protestei junto do provedor do tele-espectador da RTP, contra o tratamento dado a Obikwelu pela pivot do Desporto 2. A resposta que obtive é que, em virtude das inúmeras queixas de espectadores sobre a cobertura da RTP aos Jogos Olímpicos, o provedor vai dedicar o seu programa de 6 de Setembro integralmente ao tema.
Há quatro anos Francis Obikwelu, então atleta português recém-naturalizado, ganhou uma medalha de prata nos 100m nos Jogos Olímpicos de Atenas. A prova foi transmitida em directo no Telejornal e assim que terminou, a grande manchete era "Primeira medalha olímpica portuguesa na velocidade".
Há 4 anos ninguém tinha dúvidas que Obikwelu era português, que a sua medalha era portuguesa. Contudo...
Este ano foi diferente. Foi com a eliminação de Francis Obikwelu nos 100m e consequente abandono da carreira internacional, anunciado minutos depois, que me divorciei completamente da comunicação social portuguesa. Foi nesse momento que achei que a coisa tinha, pura e simplesmente, passado das marcas. E depois só piorou.
1. Após a eliminação, a pivot do programa Desporto 2, transmitido na RTP2 paga com o dinheiro dos contribuintes portugueses, conseguiu a proeza de se referir a Francis Obikwelu como "o atleta nigeriano"; na frase seguinte, Obikwelu passou a "luso-nigeriano" e na frase seguinte já era "atleta português de origem nigeriana". Não, isto não se admite! Nenhum órgão de comunicação social pode, por um lado, dizer que são "vitórias nossas" e no momento seguinte referir-se às "derrotas deles". Muito menos um órgão de comunicação social do estado, pago com dinheiros públicos e obrigado a prestar serviço público.
2. Poucos dias mais tarde, Naide Gomes que até ao momento era uma "atleta portuguesa" foi eliminada na qualificação do salto em comprimento. Em todas as notícias que li, nomeadamente no site do Público, a sua origem "são tomense" foi referida. Em TODAS as notícias, ela foi "atleta portuguesa de origem são tomense".
3. Gustavo Lima, que ao longo de toda a competição da classe Laser foi o "velejador português" passou subitamente, ao perder o pódio por 1 ponto, a ser "o velejador português nascido no Rio de Janeiro". No site do Público.
4. Talvez em virtude da onda de protestos que estes comentários depreciativos acerca da naturalidade dos atletas desencadearam, Nelson Évora passou a ser, em TODAS as notícias, referido como "atleta português, nascido na Costa do Marfim e filho de cabo-verdianos". Assim os órgãos de comunicação social defendem-se das acusações de parcialidade, referindo a naturalidade estrangeira de um atleta apenas quando perde.
Foi vergonhoso. É uma vergonha ver os órgãos de comunicação social a referir a naturalidade dos atletas, mas apenas de alguns. Porque ninguém disse, em nenhuma das notícias, qual a naturalidade de Vanessa Fernandes (é de Perosinho, Vila Nova de Gaia). O tema só surge quando se referem à sua família, que ainda lá mora, à forma como os seus conterrâneos vêem as provas, à festa que ocorreu em sua homenagem. A naturalidade de Vanessa Fernandes não é relevante quando se dá uma notícia sobre a sua participação numa prova, tenha corrido bem ou mal. Porque há-de ser relevante a naturalidade de Francis Obikwelu, Naide Gomes, Nelson Évora ou Gustavo Lima? A naturalidade de um atleta nascido em Braga, Castelo Branco, Almada, Coimbra ou Funchal é tão relevante quando a de um atleta nascido na Costa do Marfim, Nigéria, Guiné Bissau, Brasil, França ou São Tomé e Príncipe.
Os órgãos de comunicação social perceberam bem que meteram a pata na poça pela quantidade de comentários a esse respeito. E por isso salvaram a face referindo a origem Costa-marfinense de Nelson Évora. E podem dizer descansados que "não é só quando perdem, fizémos isso com todos!". O único problema é que... esqueceram-se de alguns: Jessica Augusto nasceu em França e Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau. Esqueceram-se de referir a naturalidade destes dois quando noticiaram as respectivas eliminações. Para a próxima, tomem nota das naturalidades dos atletas todos, podem vir a ser úteis.
E para terminar, uma pequena nota: considero meu compatriota todo aquele que assim tenha nascido e não manifeste vontade de deixar de o ser; e todo aquele que não o sendo de nascença manifeste a vontade de passar a sê-lo e assim concorde o Estado Português. A partir do momento em que o Estado Português reconhece alguém como meu compatriota, então, sê bem-vindo! Pelo que vi há tanto português "de gema" com vergonha de o ser que abraço qualquer estrangeiro que, tendo melhores opções, opta pela nacionalidade portuguesa. Não me importa onde nasceram. Isto também vale para futebolistas como Pepe, Deco (ambos brasileiros de origem), Bosingwa ou Makukula (ambos da República Democrática do Congo, ex-Zaire).
Notas:
- Francis Obikwelu nasceu na Nigéria, naturalizado português a partir de Outubro de 2001; radicou-se em Portugal em 1994, com 16 anos de idade.
- Nelson Évora nasceu na Costa do Marfim e é de ascendência cabo-verdiana; vive em Portugal desde os 5 anos de idade, tendo-se naturalizado português em 2002 (com 18 anos)
- Naide Gomes nasceu em São Tomé e Príncipe e naturalizou-se portuguesa em 2001. Vive em Portugal desde os 11 anos de idade.
- Gustavo Lima nasceu no Rio de Janeiro. Pelo que percebi, é português de nascença, tendo a família regressado a Portugal quando ainda era criança.
- Edivaldo Monteiro nasceu na Guiné-Bissau e reside em Portugal desde os 10 anos de idade. Naturalizou-se português aos 23 anos (em 2000 ou 2001, não conseguir determinar a data precisa).
- Jessica Augusto nasceu em França, mas pelo que pude determinar, desde sempre foi portuguesa. Não conseguir perceber desde quando reside em Portugal.
- Nelson Sousa (eu) é português desde que nasceu, em 1977, em Leiria. Viveu toda a vida em Portugal (Leiria e Lisboa), excepto durante 1 ano em que morou em Estrasburgo (França). E não se sente mais português que nenhum dos referidos acima.
Nota adicional: protestei junto do provedor do tele-espectador da RTP, contra o tratamento dado a Obikwelu pela pivot do Desporto 2. A resposta que obtive é que, em virtude das inúmeras queixas de espectadores sobre a cobertura da RTP aos Jogos Olímpicos, o provedor vai dedicar o seu programa de 6 de Setembro integralmente ao tema.
29 agosto 2008
JO2008 - Parte XI, Nelson Évora
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Nelson Évora sagrou-se campeão olímpico no triplo salto. Junta assim o mais cobiçado título do atletismo ao título mundial que conquistou no ano passado e ao 3º lugar nos mundiais de pista coberta em Fevereiro deste ano.
Acho que até é desnecessário dar os parabéns a Nelson Évora. Foi um feito histórico. Tornou-se o 4º campeão olímpico português, depois de Carlos Lopes em 84, Rosa Mota em 88 e Fernanda Ribeiro em 96. Graças a ele pudemos ouvir, 12 anos depois, o hino português no estádio olímpico.
Mas, olhemos com um pouco mais de atenção para o resultado de Nelson Évora. É que classificá-lo de extraordinário é pouco.
À partida havia 14 atletas com records pessoais acima de 17,50m. O líder desta lista é Jadel Gregório, com uns impressionantes 17,90, seguido de Marian Oprea com 17,80 e depois Nelson Évora com 17,74. Contudo, mais relevante ainda que as melhores marcas pessoais é a melhor marca desta época. E nas melhores marcas do ano temos Philip Idowu, o principal favorito, com 17,58, David Girat e Alexis Copello com 17,50 e lá para o meio da tabela, em 12º lugar, temos Nelson Évora em 12º com 17,33.
Note-se que 17,50 já é um salto "estratosférico" numa competição como os Jogos Olímpicos. 17,50 metros garantiram sempre uma medalha nas edições anteriores dos Jogos.
Nelson Évora qualificou-se com 17,34 (melhor marca pessoal do ano) ao segundo ensaio, após ter feito nulo no primeiro. Na final, Nelson Évora começou em segundo, atrás de Idowu que arrancou com um extraordinário 1º ensaio a 17,51. Ao segundo ensaio Nelson Évora melhor para 17,56. Ao terceiro ensaio Idowu faz 17,62 e Levan Sands bate o record nacional com 17,59, relegando Évora para o terceiro lugar. Entretanto Girat está em 4º, com 17,52 a escassos 4 cm de Évora. Se Girat melhorar pode atirar Nelson Évora para fora do pódio!
Não foi isso que aconteceu, Évora melhorou para 17,67 ao 4º ensaio, ninguém mais melhorou e ficou em primeiro. Mas... olhemos um pouco para os resultados:
1. Nelson Évora, 17,67
2. Philip Idowu, 17,62
3. Levan Sands, 17,59
4. David Girat, 17,52.
Destes 4 atletas, 3 deles bateram a melhor marca mundial do ano até aos jogos, que pertencia a Idowu com 17,58. Girat com um excelente resultado fica apenas em 4º.
Nelson Évora ganhou a medalha de ouro por apenas 5cm (a mais pequena diferença de sempre), Sands fica a em terceiro a apenas 8cm da medalha de ouro e Girat, que saltou só 15cm a menos que Évora, fica fora do pódio.
Já deu para perceber o quão à justa foi? Não tira mérito nenhum a Nelson Évora, antes pelo contrário! Foi o mais competitivo concurso de triplo salto da história dos Jogos Olímpicos e Nelson Évora ganhou! Mas... e se?
E se Évora não tem melhorado os seus 17,56, que já eram uma marca extraordinária? Ficaria em terceiro.
E se Évora tem feito apenas 17,51, o que mesmo assim já eram 17cm a mais que a marca da qualificação (e sua melhor da época)? Ficaria em 4º, fora das medalhas. Por uma unha negra, mas fora das medalhas.
E então? O que teria acontecido? Nelson Évora seria apenas "mais um que foi lá para gastar dinheiro e nem uma medalha trouxe". Se tem saltado "apenas" 17,50 teria ficado em 4º, a menos de um palmo da medalha de ouro. E seria mais um a juntar ao rol das "desilusões nacionais".
Mas não foi isso que aconteceu, e ainda bem. Nelson Évora merece mesmo esta medalha, e mostrou que é o melhor triplista da actualidade.
Mas porque é que Évora se torna heroi nacional porque ganhou (mesmo que por uma unha negra), e os que falharam por uma unha negra são umas bestas? Onde está o meio termo? O que é um resultado "assim-assim"? E um resultado "bom, mas não excepcional"?
O que percebi, é que não há. Entre o 8 e o 80 não há nada em Portugal. As coisas são sempre excepcionais. Ou pela positiva, ou pela negativa. O que não deixa de ser estranho num país em que a resposta nº 1 à pergunta "então, como vai a vida?" é "vai-se andando".
As consequências da medalha de ouro de Nelson Évora foram imediatas: de repente fazem-se as pazes com os resultados, os portugueses já podem sentir orgulho na sua equipa olímpica, e a contestação de há apenas 2 ou 3 dias esbateu-se como ruido de fundo entre gritos de "Viva Portugal" e "Somos campeões". Em apenas 2 ou 3 segundos (o tempo que demora a saltar 17,67m) passámos de "os piores" a "os melhores". Até a comunicação social, que aproveitou a escassez de notícias típica de Agosto para procurar polémicas em Pequim, começou imediatamente a falar na "melhor prestação de sempre". 1 dia antes dizia-se que "Vicente Moura não se recandidata face aos maus resultados"; 2 dias antes falava-se na "falta de brio e empenho dos atletas"; Uma semana antes falava-se de "ainda não termos subido ao pódio ao fim de uma semana de jogos". Mas agora, já está tudo para trás das costas. Ganhou, é só isso que importa!
E agora é até escusado virem acusar a comunicação social de ter provocado pressão sobre os atletas. Porque se a Vanessa Fernandes e o Nelson Évora conseguiram aguentar a pressão (são os verdadeiros campeões), os outros também o deveriam ter feito (não serão verdadeiros campeões de certeza). Além disso, esta foi "a melhor prestação olímpica de sempre"!!! E o resto, infelizmente, é só conversa.
Mas sobre os "pecados" da comunicação social falo nos próximos capítulos.
Nota: Nelson Évora tem 24 anos, é estudante do ensino superior e atleta do Benfica. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde 09/2005 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês), passando ao nível I (bolsa de 1250 euros/mês) em 09/2007. Esta é a sua segunda participação olímpica, tendo ficado em 40º lugar no triplo salto em Atenas.
Próximos episódios:
- Portugueses e estrangeiros
- Uma de ouro, uma de prata
Nelson Évora sagrou-se campeão olímpico no triplo salto. Junta assim o mais cobiçado título do atletismo ao título mundial que conquistou no ano passado e ao 3º lugar nos mundiais de pista coberta em Fevereiro deste ano.
Acho que até é desnecessário dar os parabéns a Nelson Évora. Foi um feito histórico. Tornou-se o 4º campeão olímpico português, depois de Carlos Lopes em 84, Rosa Mota em 88 e Fernanda Ribeiro em 96. Graças a ele pudemos ouvir, 12 anos depois, o hino português no estádio olímpico.
Mas, olhemos com um pouco mais de atenção para o resultado de Nelson Évora. É que classificá-lo de extraordinário é pouco.
À partida havia 14 atletas com records pessoais acima de 17,50m. O líder desta lista é Jadel Gregório, com uns impressionantes 17,90, seguido de Marian Oprea com 17,80 e depois Nelson Évora com 17,74. Contudo, mais relevante ainda que as melhores marcas pessoais é a melhor marca desta época. E nas melhores marcas do ano temos Philip Idowu, o principal favorito, com 17,58, David Girat e Alexis Copello com 17,50 e lá para o meio da tabela, em 12º lugar, temos Nelson Évora em 12º com 17,33.
Note-se que 17,50 já é um salto "estratosférico" numa competição como os Jogos Olímpicos. 17,50 metros garantiram sempre uma medalha nas edições anteriores dos Jogos.
Nelson Évora qualificou-se com 17,34 (melhor marca pessoal do ano) ao segundo ensaio, após ter feito nulo no primeiro. Na final, Nelson Évora começou em segundo, atrás de Idowu que arrancou com um extraordinário 1º ensaio a 17,51. Ao segundo ensaio Nelson Évora melhor para 17,56. Ao terceiro ensaio Idowu faz 17,62 e Levan Sands bate o record nacional com 17,59, relegando Évora para o terceiro lugar. Entretanto Girat está em 4º, com 17,52 a escassos 4 cm de Évora. Se Girat melhorar pode atirar Nelson Évora para fora do pódio!
Não foi isso que aconteceu, Évora melhorou para 17,67 ao 4º ensaio, ninguém mais melhorou e ficou em primeiro. Mas... olhemos um pouco para os resultados:
1. Nelson Évora, 17,67
2. Philip Idowu, 17,62
3. Levan Sands, 17,59
4. David Girat, 17,52.
Destes 4 atletas, 3 deles bateram a melhor marca mundial do ano até aos jogos, que pertencia a Idowu com 17,58. Girat com um excelente resultado fica apenas em 4º.
Nelson Évora ganhou a medalha de ouro por apenas 5cm (a mais pequena diferença de sempre), Sands fica a em terceiro a apenas 8cm da medalha de ouro e Girat, que saltou só 15cm a menos que Évora, fica fora do pódio.
Já deu para perceber o quão à justa foi? Não tira mérito nenhum a Nelson Évora, antes pelo contrário! Foi o mais competitivo concurso de triplo salto da história dos Jogos Olímpicos e Nelson Évora ganhou! Mas... e se?
E se Évora não tem melhorado os seus 17,56, que já eram uma marca extraordinária? Ficaria em terceiro.
E se Évora tem feito apenas 17,51, o que mesmo assim já eram 17cm a mais que a marca da qualificação (e sua melhor da época)? Ficaria em 4º, fora das medalhas. Por uma unha negra, mas fora das medalhas.
E então? O que teria acontecido? Nelson Évora seria apenas "mais um que foi lá para gastar dinheiro e nem uma medalha trouxe". Se tem saltado "apenas" 17,50 teria ficado em 4º, a menos de um palmo da medalha de ouro. E seria mais um a juntar ao rol das "desilusões nacionais".
Mas não foi isso que aconteceu, e ainda bem. Nelson Évora merece mesmo esta medalha, e mostrou que é o melhor triplista da actualidade.
Mas porque é que Évora se torna heroi nacional porque ganhou (mesmo que por uma unha negra), e os que falharam por uma unha negra são umas bestas? Onde está o meio termo? O que é um resultado "assim-assim"? E um resultado "bom, mas não excepcional"?
O que percebi, é que não há. Entre o 8 e o 80 não há nada em Portugal. As coisas são sempre excepcionais. Ou pela positiva, ou pela negativa. O que não deixa de ser estranho num país em que a resposta nº 1 à pergunta "então, como vai a vida?" é "vai-se andando".
As consequências da medalha de ouro de Nelson Évora foram imediatas: de repente fazem-se as pazes com os resultados, os portugueses já podem sentir orgulho na sua equipa olímpica, e a contestação de há apenas 2 ou 3 dias esbateu-se como ruido de fundo entre gritos de "Viva Portugal" e "Somos campeões". Em apenas 2 ou 3 segundos (o tempo que demora a saltar 17,67m) passámos de "os piores" a "os melhores". Até a comunicação social, que aproveitou a escassez de notícias típica de Agosto para procurar polémicas em Pequim, começou imediatamente a falar na "melhor prestação de sempre". 1 dia antes dizia-se que "Vicente Moura não se recandidata face aos maus resultados"; 2 dias antes falava-se na "falta de brio e empenho dos atletas"; Uma semana antes falava-se de "ainda não termos subido ao pódio ao fim de uma semana de jogos". Mas agora, já está tudo para trás das costas. Ganhou, é só isso que importa!
E agora é até escusado virem acusar a comunicação social de ter provocado pressão sobre os atletas. Porque se a Vanessa Fernandes e o Nelson Évora conseguiram aguentar a pressão (são os verdadeiros campeões), os outros também o deveriam ter feito (não serão verdadeiros campeões de certeza). Além disso, esta foi "a melhor prestação olímpica de sempre"!!! E o resto, infelizmente, é só conversa.
Mas sobre os "pecados" da comunicação social falo nos próximos capítulos.
Nota: Nelson Évora tem 24 anos, é estudante do ensino superior e atleta do Benfica. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde 09/2005 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês), passando ao nível I (bolsa de 1250 euros/mês) em 09/2007. Esta é a sua segunda participação olímpica, tendo ficado em 40º lugar no triplo salto em Atenas.
Próximos episódios:
- Portugueses e estrangeiros
- Uma de ouro, uma de prata
JO2008 - Parte X, Razões e desculpas
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
Após a eliminação surpresa de Naide Gomes viveu-se em Portugal uma era conturbada. Digo que foi uma era porque o ritmo das notícias, das opiniões, dos comentários, a visibilidade do tema, dava a entender que a situação se arrastava há anos. E digo que se viveu porque apenas 48h depois (tema a discutir no próximo capítulo) a tempestade desapareceu e entrámos na era da bonança.
Gustavo Lima
O tom de críticas aos atletas olímpicos subiu de tom de tal forma que Gustavo Lima, que perdeu a medalha de bronze por 1 ponto, decidiu desistir da vela. Espero (e acredito que esperem muito mais de metade dos portugueses) que ele reconsidere.
Depois do 6º lugar em Sidney, do 5º lugar em Atenas, do 4º lugar em Pequim, queria mesmo muito vê-lo subir ao pódio. Poucos atletas se sentirão tão injustiçados pela opinião pública portuguesa como Gustavo Lima se sente neste momento.
A opinião pública neste momento criticava os atletas por terem ido a Pequim gastar dinheiro dos nossos impostos (assunto sobre o qual falarei mais à frente), por estarem em Pequim mais a passear que a competir e, obviamente, porque ninguém consegue o raio de uma medalha. Ninguém, não! Porque a medalha de prata conseguida por Vanessa Fernandes só veio dar mais um argumento ao Zé: "Tão a ver, a Vanessa é que é, ela trabalha e traz uma medalha, não fica de fora por um ponto, nem é eliminada. Ela é que é uma grande atleta!".
Lembrem-se que Gustavo Lima falhou a medalha de bronze por um ponto. Vai ser relevante no próximo post.
Em defesa de Gustavo Lima podia-se dizer que do Clube Naval de Cascais, segundo palavras do próprio, só recebe mensagens SMS ou e-mails a agradecer a boa representação que faz do clube. E que da Federação Portuguesa de Vela obteve 10 treinos mensais com treinador. Acho razoável supor que os medalhados olímpicos disponham de treinador próprio, com o qual treinem todos os dias, mas como não conheço a situação da vela, prefiro não especular.
Espero que Gustavo Lima reconsidere e que continue na vela. Porque que os Jogos Olímpicos devem-lhe uma medalha e os portugueses devem-lhe um pedido de desculpas.
Por favor, desculpem
Todo o clima que se viveu em torno da comitiva portuguesa deu azo a situações que roçam o ridículo! Emanuel Silva, após falhar a qualificação para a final dos 1000m na canoagem, disse que fez o seu melhor e que "se desiludi alguém, peço desculpas". Agora todo e qualquer atleta que enfrenta os jornalistas vem de peito cheio, a falar na importância de representar Portugal, defendendo o seu desempenho e pedindo desculpas, contrito, se não conseguiu o apuramento ou a medalha. Fosse ou não um resultado expectável. Foi a este ponto que chegámos: qualquer atleta sente que, se não ganhar, os portugueses vão dizer que mais valia não ter ido. Num dia passa à fase seguinte e é usado como exemplo de dedicação, no dia seguinte perde uma medalha e é acusado de falta de empenho. Por vezes pelas mesmas pessoas que o louvaram na véspera!
Mas... um pouco de história.
Há 4 anos, Emanuel Silva era um desconhecido. Chegou aos jogos olímpicos, tornando-se, salvo erro, o primeiro português a fazê-lo. Qualificou-se para uma final e uma meia-final na canoagem. ERA O MAIOR!!! O maior feito da canoagem portuguesa de sempre! Só à conta dele houve imensos jovens a começar a praticar canoagem. Como resultado este ano temos outras 3 atletas na canoagem: uma em singulares e uma dupla. Em Atenas Emanuel Silva teve honras de reportagem, entrevistas, artigos no jornal a louvar os seus feitos. Pouco faltou para aparecer um novo Camões a transcrever o seu heroísmo em poema.
4 anos depois, falhou a final por 35 milésimos de segundo (na televisão até dá a ideia que até cortou a meta à frente), ficando em 4º da sua meia-final. E vem pedir desculpas se alguém se sente desiludido. Porque nem se atreve a dizer que chegar à meia-final é um bom resultado, não vá alguém acusá-lo de não se aplicar com afinco, de estar em Pequim só para passear, de não dignificar as cores portuguesas.
Também se apurou para a meia-final de K1 500m e ficou em 5º na sua série, falhando também o apuramento para a final. As outras atletas também chegaram às respectivas meias finais, não conseguindo o apuramento para a final. A todos, muitos parabéns! Para um país que há 4 anos não tinha canoagem olímpica fizeram um verdadeiro milagre em Pequim! Espero ver-vos em 2012 em Londres.
Em defesa de Emanuel Silva e dos restantes atletas da canoagem, se tal fosse necessário, poder-se-ia dizer que em Portugal não existe ainda uma pista de canoagem. Está uma em construção, mas não existe. Não faço ideia como se fazem as marcações de distâncias ou de pistas. Também não sei onde se treina, se usam rios ou barragens ou se treinam com frequência no estrangeiro.
Vicente Moura
Em face dos resultados (eliminação de Naide Gomes e 4º lugar de Gustavo Lima), Vicente Moura disse que não continuaria à frente do COP. A notícia até foi dada como se ele tivesse dito que se demitia, vindo depois o próprio a dizer que leva o mandato até ao fim (Dezembro de 2008) mas que não se candidata a novo mandato.
Acho que sim senhor, fica bem. Ainda durante os jogos o presidente do COP diz que vai largar o barco, que os resultados ficam abaixo do esperado. Como se não houvesse críticas suficientes vem o responsável máximo dizer que a coisa correu mal.
Seria o mesmo que um treinador demitir-se ao intervalo de um jogo, porque está a perder e já não é possível dar a volta.
De um atleta espera-se que dê o máximo (e todos deram, que não restem dúvidas!) até ao fim da prova. De um dirigente espera-se que leve a missão até ao fim e que só faça balanços no final das provas. Não é a meio, quando ainda faltam competir uns 20 atletas, que se vem fazer balanços finais.
Claro que, por um lado, Vicente Moura tinha razão: até à eliminação de Naide Gomes as nossas esperanças de 4 medalhas estavam intactas. Ela era candidata a medalha, Nelson Évora também e Gustavo Lima partia para a última regata em terceiro da geral.
Mas se calhar, caso tivesse ficado calado logo na véspera quando veio falar no brio e profissionalismo, nem Naide Gomes teria sido eliminada, nem Gustavo Lima teria ficado em 4º. Não quero dizer que a culpa do fracasso destes atletas é de um dirigente, longe disso. O mérito quando ganham é deles, a responsabilidade pelo fracasso é, em última análise, deles também. Mas que não ajuda ter a sua dedicação posta em causa na véspera da prova decisiva, lá isso não.
Nota 1: Gustavo Lima tem 31 anos e é velejador profissional do Clube Naval de Cascais. Participou pela terceira vez nuns Jogos Olímpicos. Foi integrado no projecto Pequim 2008 em Setembro de 2004 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês). Entre 08/2006 e 07/2007 esteve integrado no nível I (bolsa de 1250 euros/mês), voltando ao nível II em 08/2007.
Nota 2:Emanuel Silva tem 22 anos e estuda no 12º ano. É atleta do Clube Náutico do Prado. Participou pela 2ª vez nos Jogos Olímpicos. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde Setembro de 2004, no nível II (bolsa de 1000 euros/mês).
Após a eliminação surpresa de Naide Gomes viveu-se em Portugal uma era conturbada. Digo que foi uma era porque o ritmo das notícias, das opiniões, dos comentários, a visibilidade do tema, dava a entender que a situação se arrastava há anos. E digo que se viveu porque apenas 48h depois (tema a discutir no próximo capítulo) a tempestade desapareceu e entrámos na era da bonança.
Gustavo Lima
O tom de críticas aos atletas olímpicos subiu de tom de tal forma que Gustavo Lima, que perdeu a medalha de bronze por 1 ponto, decidiu desistir da vela. Espero (e acredito que esperem muito mais de metade dos portugueses) que ele reconsidere.
Depois do 6º lugar em Sidney, do 5º lugar em Atenas, do 4º lugar em Pequim, queria mesmo muito vê-lo subir ao pódio. Poucos atletas se sentirão tão injustiçados pela opinião pública portuguesa como Gustavo Lima se sente neste momento.
A opinião pública neste momento criticava os atletas por terem ido a Pequim gastar dinheiro dos nossos impostos (assunto sobre o qual falarei mais à frente), por estarem em Pequim mais a passear que a competir e, obviamente, porque ninguém consegue o raio de uma medalha. Ninguém, não! Porque a medalha de prata conseguida por Vanessa Fernandes só veio dar mais um argumento ao Zé: "Tão a ver, a Vanessa é que é, ela trabalha e traz uma medalha, não fica de fora por um ponto, nem é eliminada. Ela é que é uma grande atleta!".
Lembrem-se que Gustavo Lima falhou a medalha de bronze por um ponto. Vai ser relevante no próximo post.
Em defesa de Gustavo Lima podia-se dizer que do Clube Naval de Cascais, segundo palavras do próprio, só recebe mensagens SMS ou e-mails a agradecer a boa representação que faz do clube. E que da Federação Portuguesa de Vela obteve 10 treinos mensais com treinador. Acho razoável supor que os medalhados olímpicos disponham de treinador próprio, com o qual treinem todos os dias, mas como não conheço a situação da vela, prefiro não especular.
Espero que Gustavo Lima reconsidere e que continue na vela. Porque que os Jogos Olímpicos devem-lhe uma medalha e os portugueses devem-lhe um pedido de desculpas.
Por favor, desculpem
Todo o clima que se viveu em torno da comitiva portuguesa deu azo a situações que roçam o ridículo! Emanuel Silva, após falhar a qualificação para a final dos 1000m na canoagem, disse que fez o seu melhor e que "se desiludi alguém, peço desculpas". Agora todo e qualquer atleta que enfrenta os jornalistas vem de peito cheio, a falar na importância de representar Portugal, defendendo o seu desempenho e pedindo desculpas, contrito, se não conseguiu o apuramento ou a medalha. Fosse ou não um resultado expectável. Foi a este ponto que chegámos: qualquer atleta sente que, se não ganhar, os portugueses vão dizer que mais valia não ter ido. Num dia passa à fase seguinte e é usado como exemplo de dedicação, no dia seguinte perde uma medalha e é acusado de falta de empenho. Por vezes pelas mesmas pessoas que o louvaram na véspera!
Mas... um pouco de história.
Há 4 anos, Emanuel Silva era um desconhecido. Chegou aos jogos olímpicos, tornando-se, salvo erro, o primeiro português a fazê-lo. Qualificou-se para uma final e uma meia-final na canoagem. ERA O MAIOR!!! O maior feito da canoagem portuguesa de sempre! Só à conta dele houve imensos jovens a começar a praticar canoagem. Como resultado este ano temos outras 3 atletas na canoagem: uma em singulares e uma dupla. Em Atenas Emanuel Silva teve honras de reportagem, entrevistas, artigos no jornal a louvar os seus feitos. Pouco faltou para aparecer um novo Camões a transcrever o seu heroísmo em poema.
4 anos depois, falhou a final por 35 milésimos de segundo (na televisão até dá a ideia que até cortou a meta à frente), ficando em 4º da sua meia-final. E vem pedir desculpas se alguém se sente desiludido. Porque nem se atreve a dizer que chegar à meia-final é um bom resultado, não vá alguém acusá-lo de não se aplicar com afinco, de estar em Pequim só para passear, de não dignificar as cores portuguesas.
Também se apurou para a meia-final de K1 500m e ficou em 5º na sua série, falhando também o apuramento para a final. As outras atletas também chegaram às respectivas meias finais, não conseguindo o apuramento para a final. A todos, muitos parabéns! Para um país que há 4 anos não tinha canoagem olímpica fizeram um verdadeiro milagre em Pequim! Espero ver-vos em 2012 em Londres.
Em defesa de Emanuel Silva e dos restantes atletas da canoagem, se tal fosse necessário, poder-se-ia dizer que em Portugal não existe ainda uma pista de canoagem. Está uma em construção, mas não existe. Não faço ideia como se fazem as marcações de distâncias ou de pistas. Também não sei onde se treina, se usam rios ou barragens ou se treinam com frequência no estrangeiro.
Vicente Moura
Em face dos resultados (eliminação de Naide Gomes e 4º lugar de Gustavo Lima), Vicente Moura disse que não continuaria à frente do COP. A notícia até foi dada como se ele tivesse dito que se demitia, vindo depois o próprio a dizer que leva o mandato até ao fim (Dezembro de 2008) mas que não se candidata a novo mandato.
Acho que sim senhor, fica bem. Ainda durante os jogos o presidente do COP diz que vai largar o barco, que os resultados ficam abaixo do esperado. Como se não houvesse críticas suficientes vem o responsável máximo dizer que a coisa correu mal.
Seria o mesmo que um treinador demitir-se ao intervalo de um jogo, porque está a perder e já não é possível dar a volta.
De um atleta espera-se que dê o máximo (e todos deram, que não restem dúvidas!) até ao fim da prova. De um dirigente espera-se que leve a missão até ao fim e que só faça balanços no final das provas. Não é a meio, quando ainda faltam competir uns 20 atletas, que se vem fazer balanços finais.
Claro que, por um lado, Vicente Moura tinha razão: até à eliminação de Naide Gomes as nossas esperanças de 4 medalhas estavam intactas. Ela era candidata a medalha, Nelson Évora também e Gustavo Lima partia para a última regata em terceiro da geral.
Mas se calhar, caso tivesse ficado calado logo na véspera quando veio falar no brio e profissionalismo, nem Naide Gomes teria sido eliminada, nem Gustavo Lima teria ficado em 4º. Não quero dizer que a culpa do fracasso destes atletas é de um dirigente, longe disso. O mérito quando ganham é deles, a responsabilidade pelo fracasso é, em última análise, deles também. Mas que não ajuda ter a sua dedicação posta em causa na véspera da prova decisiva, lá isso não.
Nota 1: Gustavo Lima tem 31 anos e é velejador profissional do Clube Naval de Cascais. Participou pela terceira vez nuns Jogos Olímpicos. Foi integrado no projecto Pequim 2008 em Setembro de 2004 no nível II (bolsa de 1000 euros/mês). Entre 08/2006 e 07/2007 esteve integrado no nível I (bolsa de 1250 euros/mês), voltando ao nível II em 08/2007.
Nota 2:Emanuel Silva tem 22 anos e estuda no 12º ano. É atleta do Clube Náutico do Prado. Participou pela 2ª vez nos Jogos Olímpicos. Está integrado no projecto Pequim 2008 desde Setembro de 2004, no nível II (bolsa de 1000 euros/mês).
28 agosto 2008
JO2008 - Parte IX, Naide Gomes
Este post faz parte de uma série dedicada à participação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim. É aconselhável ler também os posts anteriores.
É o caso mais dramático da comitiva portuguesa. De muito longe a principal favorita à medalha de ouro na sua especialidade, e o primeiro ensaio, bem para cima de 7,20 caso tivesse sido válido mostrou isso mesmo. Este salto teria sido record nacional por larga margem e uma das melhores marcas desde a era dos esteroides em que americanas, alemãs de leste e russas carregadas de dopantes saltavam 7,40 ou mais. Desde 1994 que os saltos acima de 7,20 são verdadeiras raridades.
O primeiro ensaio foi nulo, o segundo ensaio foi nulo. A ansiedade do terceiro ensaio deu borrada. Hesitou, travou e saltou, quase sem balanço, para fazer apenas 6,29, a 46 cm da qualificação directa e a mais de 30cm de um lugar na final por repescagem. Quem viu a transmissão viu como ela ficou. Naide Gomes ficou inconsolável, desolada. Há muitos anos que não falhava uma qualificação. Falhou agora. Tivesse algum dos primeiros dois ensaios sido válido, tinha-se qualificado, era a maior. Como foi eliminada, não serve, não presta, não honra Portugal. Devia era ser castigada e devolver o dinheiro que o estado lhe pagou (sim, cheguei a ler comentários desta índole no site do Público!). Mas sobre dinheiro, já falaremos..
No fim da qualificação, Naide Gomes falou aos jornalistas. E disse que todos os atletas presentes têm brio e se aplicam a fundo para representar bem Portugal. Pois, era precisamente isto que eu receava. Com as palavras de Vicente Moura e Vanessa Fernandes sentiu-se atingida Naide Gomes. Decerto que não era a ela que Vicente Moura se referia. Também não seria da falta de empenho de Naide Gomes que falou Vanessa Fernandes. Mas foi ela que se sentiu atingida. Vicente Moura defendeu-se das críticas desviando a culpa para o empenho dos atletas e, de todos os atletas, é Naide Gomes, actual campeã do mundo de pista coberta (Fevereiro 2008) e detentora da melhor marca mundial do ano a sentir-se afectada. E mostrou em pista que ficou afectada.
Naide Gomes é uma atleta excepcional e sem dúvida merecia uma medalha. Aliás, bem vistas as coisas, era a principal candidata da comitiva portuguesa a uma medalha de ouro. Já se sabia que Vanessa Fernandes ia defrontar forte concorrência das australianas, já se sabia que o inglês Idowu seria um adversário difícil para Nelson Évora. Mas Naide Gomes neste momento era de longe a que se apresentava em melhor forma, tendo em apenas 1 mês batido o seu record nacional por duas vezes, e, após igualar a melhor marca mundial do ano com 7,04 a meio de Julho, melhorou-a por 8cm 1 semana depois.
Acusou a pressão e foi uma Naide Gomes irreconhecível que saltou. Acusou o peso que caia sobre os seus ombros, como uma das últimas esperanças de uma nação que estava, naquele momento, de costas voltadas para a equipa olímpica.
Nota: Naide Gomes tem 28 anos, é estudante do ensino superior e atleta do Sporting. É actualmente campeã mundial de pista coberta, depois de ter sido 4ª nos últimos mundiais ao ar livre em 2007. É campeã europeia de pista coberta e vice-campeã europeia ao ar livre. É a detentora do record nacional com 7,12m e actual líder mundial do ano, quer ao ar livre, quer em pista coberta. Esteve nos JO de Atenas no heptatlo tendo sido 13ª com novo record nacional; nos jogos de Sidney participou nos 110m barreiras por S. Tomé e Príncipe. Está integrada no projecto Pequim 2008 desde Setembro de 2004 no nível III (bolsa de 750 euros/mês), tendo subido ao nível II (bolsa de 1000 euros/mês) em Setembro de 2007 e ao nível I (bolsa de 1250 euros/mês) em Março de 2008. Tendo sido eliminada nas qualificações dos JO de Pequim está de fora do projecto para Londres.
Próximos capítulos:
- Razões e desculpas
- Nelson Évora
É o caso mais dramático da comitiva portuguesa. De muito longe a principal favorita à medalha de ouro na sua especialidade, e o primeiro ensaio, bem para cima de 7,20 caso tivesse sido válido mostrou isso mesmo. Este salto teria sido record nacional por larga margem e uma das melhores marcas desde a era dos esteroides em que americanas, alemãs de leste e russas carregadas de dopantes saltavam 7,40 ou mais. Desde 1994 que os saltos acima de 7,20 são verdadeiras raridades.
O primeiro ensaio foi nulo, o segundo ensaio foi nulo. A ansiedade do terceiro ensaio deu borrada. Hesitou, travou e saltou, quase sem balanço, para fazer apenas 6,29, a 46 cm da qualificação directa e a mais de 30cm de um lugar na final por repescagem. Quem viu a transmissão viu como ela ficou. Naide Gomes ficou inconsolável, desolada. Há muitos anos que não falhava uma qualificação. Falhou agora. Tivesse algum dos primeiros dois ensaios sido válido, tinha-se qualificado, era a maior. Como foi eliminada, não serve, não presta, não honra Portugal. Devia era ser castigada e devolver o dinheiro que o estado lhe pagou (sim, cheguei a ler comentários desta índole no site do Público!). Mas sobre dinheiro, já falaremos..
No fim da qualificação, Naide Gomes falou aos jornalistas. E disse que todos os atletas presentes têm brio e se aplicam a fundo para representar bem Portugal. Pois, era precisamente isto que eu receava. Com as palavras de Vicente Moura e Vanessa Fernandes sentiu-se atingida Naide Gomes. Decerto que não era a ela que Vicente Moura se referia. Também não seria da falta de empenho de Naide Gomes que falou Vanessa Fernandes. Mas foi ela que se sentiu atingida. Vicente Moura defendeu-se das críticas desviando a culpa para o empenho dos atletas e, de todos os atletas, é Naide Gomes, actual campeã do mundo de pista coberta (Fevereiro 2008) e detentora da melhor marca mundial do ano a sentir-se afectada. E mostrou em pista que ficou afectada.
Naide Gomes é uma atleta excepcional e sem dúvida merecia uma medalha. Aliás, bem vistas as coisas, era a principal candidata da comitiva portuguesa a uma medalha de ouro. Já se sabia que Vanessa Fernandes ia defrontar forte concorrência das australianas, já se sabia que o inglês Idowu seria um adversário difícil para Nelson Évora. Mas Naide Gomes neste momento era de longe a que se apresentava em melhor forma, tendo em apenas 1 mês batido o seu record nacional por duas vezes, e, após igualar a melhor marca mundial do ano com 7,04 a meio de Julho, melhorou-a por 8cm 1 semana depois.
Acusou a pressão e foi uma Naide Gomes irreconhecível que saltou. Acusou o peso que caia sobre os seus ombros, como uma das últimas esperanças de uma nação que estava, naquele momento, de costas voltadas para a equipa olímpica.
Nota: Naide Gomes tem 28 anos, é estudante do ensino superior e atleta do Sporting. É actualmente campeã mundial de pista coberta, depois de ter sido 4ª nos últimos mundiais ao ar livre em 2007. É campeã europeia de pista coberta e vice-campeã europeia ao ar livre. É a detentora do record nacional com 7,12m e actual líder mundial do ano, quer ao ar livre, quer em pista coberta. Esteve nos JO de Atenas no heptatlo tendo sido 13ª com novo record nacional; nos jogos de Sidney participou nos 110m barreiras por S. Tomé e Príncipe. Está integrada no projecto Pequim 2008 desde Setembro de 2004 no nível III (bolsa de 750 euros/mês), tendo subido ao nível II (bolsa de 1000 euros/mês) em Setembro de 2007 e ao nível I (bolsa de 1250 euros/mês) em Março de 2008. Tendo sido eliminada nas qualificações dos JO de Pequim está de fora do projecto para Londres.
Próximos capítulos:
- Razões e desculpas
- Nelson Évora
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